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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As relações tecnológicas do Brasil com o mundo exterior: passado, presente e perspectivas]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article presents a reflection on the relation between Brazilian economy and the world outside under a technological perspective. To do so, it makes uses the main dimensions of the balance of payments, seeking to explore its relations throughout time. It is grounded on previous works which developed the indicators of technological balance of payments, but if focus on the conceptual aspects, on the relations between the many dimensions, and on the understanding of the change process. The reflection is based on supporting documents from diverse industries and economic activities, and makes use of known elements of the Brazilian reality. That enables us to start the argumentation and to enrich the discussion with new perspectives so that we can have a debate which can make a wealth of contribution to the Brazilian development.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4">    <b>As rela&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas do Brasil com o mundo exterior:    passado, presente e perspectivas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Jo&atilde;o    Furtado</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Economista e professor    da Escola Polit&eacute;cnica da USP</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Este ensaio apresenta    uma reflex&atilde;o sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre a economia brasileira    e o mundo exterior numa perspectiva tecnol&oacute;gica. Utiliza para isso as    principais dimens&otilde;es do balan&ccedil;o de pagamentos, procurando explorar    as suas rela&ccedil;&otilde;es ao longo do tempo. Ele apoia-se em trabalhos    anteriores que desenvolveram os indicadores do balan&ccedil;o de pagamentos    tecnol&oacute;gico, mas volta-se para os aspectos conceituais, para as rela&ccedil;&otilde;es    entre as v&aacute;rias dimens&otilde;es e para a compreens&atilde;o dos processos    de mudan&ccedil;a. A reflex&atilde;o produzida apoia-se em evid&ecirc;ncias    de variadas ind&uacute;strias e atividades econ&ocirc;micas e lan&ccedil;a m&atilde;o    de elementos conhecidos da realidade brasileira, o que permite abrir a argumenta&ccedil;&atilde;o    e facilitar o enriquecimento da discuss&atilde;o com novas perspectivas para    um debate que tem muito a contribuir para o desenvolvimento brasileiro.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave:</b>    tecnologia, ind&uacute;stria, economia, realidade brasileira.</font></p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font>  </p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">This article presents    a reflection on the relation between Brazilian economy and the world outside    under a technological perspective. To do so, it makes uses the main dimensions    of the balance of payments, seeking to explore its relations throughout time.    It is grounded on previous works which developed the indicators of technological    balance of payments, but if focus on the conceptual aspects, on the relations    between the many dimensions, and on the understanding of the change process.    The reflection is based on supporting documents from diverse industries and    economic activities, and makes use of known elements of the Brazilian reality.    That enables us to start the argumentation and to enrich the discussion with    new perspectives so that we can have a debate which can make a wealth of contribution    to the Brazilian development.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Keywords: technology,    industry, economy, Brazilian reality.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Este ensaio toma    como ponto de partida os estudos desenvolvidos anteriormente no quadro dos <i>Indicadores    de Ci&ecirc;ncia, Tecnologia e Inova&ccedil;&atilde;o</i>, um volume editado    regularmente pela Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; </font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pesquisa do Estado    de S&atilde;o Paulo<a name="top1"></a><a href="#back1"><sup>1</sup></a>. Nas    tr&ecirc;s &uacute;ltimas edi&ccedil;&otilde;es dessa publica&ccedil;&atilde;o    que a Fapesp oferece &agrave; comunidade de ci&ecirc;ncia, tecnologia e inova&ccedil;&atilde;o,    o escopo do cap&iacute;tulo que trata do balan&ccedil;o de pagamentos tecnol&oacute;gico    foi sendo redefinido para ganhar contornos coerentes com a seguinte quest&atilde;o    principal: como se descreve, de modo abrangente e sint&eacute;tico, o conjunto    de rela&ccedil;&otilde;es de natureza tecnol&oacute;gica que existem entre um    pa&iacute;s e os demais? Este artigo d&aacute; continuidade a essa reflex&atilde;o,    agora com &ecirc;nfase nos aspectos qualitativos (e n&atilde;o nos indicadores    e nos elementos quantitativos). Entende-se que os elementos emp&iacute;ricos    (e as estat&iacute;sticas sistem&aacute;ticas) s&atilde;o mais bem explorados    naquele outro contexto.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O tema principal    deste artigo &eacute; a discuss&atilde;o sobre as rela&ccedil;&otilde;es - de    natureza tecnol&oacute;gica - de uma economia com o mundo exterior. Considera&ccedil;&otilde;es    de ordem geral s&atilde;o feitas, mas a preocupa&ccedil;&atilde;o central, expl&iacute;cita,    envolve principalmente a economia brasileira, ou situa&ccedil;&otilde;es que    permitam pensar a natureza e as caracter&iacute;sticas - muito especiais - de    uma economia como a brasileira.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Que caracter&iacute;sticas    da economia brasileira a tornam um caso especial de desenvolvimento e de relacionamento    - tecnol&oacute;gico - com o mundo exterior? Economia continental, com um desenvolvimento    fortemente baseado em recursos naturais at&eacute; meados do s&eacute;culo XX<a name="top2"></a><a href="#back2"><sup>2</sup></a>,    o Brasil apresentou durante pelo menos meio s&eacute;culo uma forte expans&atilde;o    econ&ocirc;mica liderada pelo setor industrial, que progressivamente foi tornando    menos importante (em termos relativos) o setor prim&aacute;rio e as suas exporta&ccedil;&otilde;es.    Essa expans&atilde;o ofereceu um espa&ccedil;o privilegiado para as empresas    estrangeiras (multinacionais, sobretudo) de todas as origens. Capitais europeus,    estadunidenses e japoneses aqui lan&ccedil;aram bases de sua expans&atilde;o    internacional desde meados dos anos 1950. A forte presen&ccedil;a de capitais    e empresas de origem estrangeira conviveu desde ent&atilde;o com um forte setor    empresarial de origem estatal e com uma regula&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica    que ajudou, durante v&aacute;rios dec&ecirc;nios, a moldar as rela&ccedil;&otilde;es    das empresas (de todas as origens) com os fornecedores estrangeiros de tecnologia.    O trip&eacute; de capitais - privado nacional, privado estrangeiro e estatal    - desenvolveu tr&ecirc;s din&acirc;micas particulares com rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; tecnologia e ao desenvolvimento. As grandes empresas de origem estrangeira    contaram, durante muito tempo, com a sufici&ecirc;ncia da matriz como fonte    segura para o seu protagonismo industrial; e para a lideran&ccedil;a que facilmente    conquistaram em grande n&uacute;mero de setores, que se viu refor&ccedil;ada    nos principais per&iacute;odos de crescimento acelerado<a name="top3"></a><a href="#back3"><sup>3</sup></a>.    As empresas privadas nacionais, por seu lado, puderam recorrer &agrave; importa&ccedil;&atilde;o    (de m&aacute;quinas, equipamentos) e &agrave; contrata&ccedil;&atilde;o de projetos    e servi&ccedil;os de assist&ecirc;ncia t&eacute;cnica para viabilizarem os seus    investimentos e ocuparem os novos mercados, em forma&ccedil;&atilde;o pelo crescimento    acelerado da ind&uacute;stria e das cidades. As empresas estatais desenvolveram    estrat&eacute;gias h&iacute;bridas, com importa&ccedil;&atilde;o de tecnologia    complementada por esfor&ccedil;os pr&oacute;prios. Esse quadro variado define    um sistema bastante complexo, e nele proliferam ideias e teses variadas sobre    o quadro desej&aacute;vel para a tecnologia no Brasil e o seu papel no desenvolvimento.    Entre os economistas de forma&ccedil;&atilde;o mais ortodoxa, a vis&atilde;o    era de que o Brasil deveria deixar-se guiar pela sua dota&ccedil;&atilde;o de    fatores e atrair capitais e tecnologias. Entre os economistas de convic&ccedil;&otilde;es    mais heterodoxas, a industrializa&ccedil;&atilde;o deveria ser perseguida lan&ccedil;ando    m&atilde;o de esfor&ccedil;os essencialmente internos, a&iacute; incluindo o    mercado (interno). O modelo h&iacute;brido finalmente alcan&ccedil;ado combinou    industrializa&ccedil;&atilde;o (e n&atilde;o especializa&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria)    com ampla entrada de capitais estrangeiros (e n&atilde;o esfor&ccedil;os essencialmente    aut&ocirc;nomos).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>PROTECIONISMO,    CRESCIMENTO E APRENDIZAGEM</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma das caracter&iacute;sticas    mais frequentemente destacadas no debate sobre o desenvolvimento tecnol&oacute;gico    limitado da economia brasileira (e, sobretudo, da sua ind&uacute;stria de transforma&ccedil;&atilde;o)    envolve a sua rela&ccedil;&atilde;o com o protecionismo, quer dizer, com a preval&ecirc;ncia    de um elevado n&iacute;vel de prote&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o    nacional com rela&ccedil;&atilde;o aos produtos importados. Se para uns o protecionismo    &eacute; indispens&aacute;vel, para outros ele est&aacute; na raiz de todos    os males. Para aqueles, seus efeitos s&atilde;o secund&aacute;rios perto dos    seus benef&iacute;cios; e para estes ele produz uma distor&ccedil;&atilde;o    incorrig&iacute;vel no sistema econ&ocirc;mico. Os defensores incondicionais    da prote&ccedil;&atilde;o dir&atilde;o que o crescimento econ&ocirc;mico e a    industrializa&ccedil;&atilde;o dos <i>cinquenta gloriosos</i> (1930-80) demonstram    o acerto da escolha, ao passo que os cr&iacute;ticos do protecionismo apresentar&atilde;o    como apoio aos seus argumentos as fragilidades e as mazelas do modelo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A prote&ccedil;&atilde;o    &eacute; um ingrediente presente em todos os projetos nacionais de desenvolvimento,    desde o pioneiro, ingl&ecirc;s. Foi defendida teoricamente como instrumento    para o desenvolvimento industrial no in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX, principalmente    por List<a name="top4"></a><a href="#back4"><sup>4</sup></a>: ajudado por sua    experi&ecirc;ncia nos Estados Unidos, refletiu sobre o problema do desenvolvimento    dos pa&iacute;ses que, como os reinos alem&atilde;es, n&atilde;o acompanharam    o movimento original da revolu&ccedil;&atilde;o industrial inglesa no s&eacute;culo    XVIII e sucumbiriam, se nada fizessem, ao imenso poderio do sistema industrial    brit&acirc;nico. As suas proposi&ccedil;&otilde;es sobre a prote&ccedil;&atilde;o    contribu&iacute;ram para a Uni&atilde;o Aduaneira dos Estados Alem&atilde;es    de 1834 (<i>Zollverein</i>). Essa uni&atilde;o aduaneira substituiu os pequenos    estados que vieram a compor a na&ccedil;&atilde;o alem&atilde; por um territ&oacute;rio    unificado, com <i>barreiras internas reduzidas e barreiras externas mais elevadas</i>.    O bin&ocirc;mio representado por um espa&ccedil;o alem&atilde;o unificado pela    remo&ccedil;&atilde;o das barreiras internas em simult&acirc;neo &agrave;s barreiras    externas contra importa&ccedil;&otilde;es &eacute; muito frequentemente ignorado    pelos defensores incondicionais da prote&ccedil;&atilde;o, e esse descaso possui    efeitos muito importantes sobre o modo como compreendem o funcionamento do sistema    e o teor das suas preocupa&ccedil;&otilde;es com rela&ccedil;&atilde;o ao desenvolvimento    tecnol&oacute;gico<a name="top5"></a><a href="#back5"><sup>5</sup></a>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A eleva&ccedil;&atilde;o    das barreiras comerciais externas e a remo&ccedil;&atilde;o das barreiras comerciais    internas (entre os estados alem&atilde;es desde ent&atilde;o reunidos no <i>Zollverein</i>)    contribu&iacute;ram para colocar em marcha poderosas for&ccedil;as competitivas,    entre empresas com graus de desenvolvimento relativamente mais parecidos do    que, por exemplo, o existente entre qualquer empresa de um reino alem&atilde;o    e a sua cong&ecirc;nere inglesa. A competi&ccedil;&atilde;o entre os <i>mais    iguais</i> pode ser considerada um ant&iacute;doto contra os elementos est&eacute;reis    ou mesmo nocivos do protecionismo, mesmo que ocorra a partir de um patamar de    desenvolvimento tecnol&oacute;gico e industrial inferior ao que prevalece em    outros espa&ccedil;os nacionais ou no &acirc;mbito internacional: a din&acirc;mica    competitiva &eacute; mais importante do que o patamar em que o padr&atilde;o    de produ&ccedil;&atilde;o se encontra em determinado momento. Diferentemente    das suas vers&otilde;es extremadas, propugnadas pelos ultraliberais e pelos    desenvolvimentistas hiperprotecionistas, a prote&ccedil;&atilde;o n&atilde;o    &eacute; um mal em si mesma nem um bem sem efeitos colaterais. A prote&ccedil;&atilde;o    &eacute; um ingrediente de um modelo, que pode resultar em diferentes processos,    com resultados muito distintos, a depender da sua complexa intera&ccedil;&atilde;o    com os demais elementos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A prote&ccedil;&atilde;o    foi tudo menos um elemento isolado no desenvolvimento alem&atilde;o. As dores    das derrotas para os ex&eacute;rcitos napole&ocirc;nicos e a humilha&ccedil;&atilde;o    que elas representaram para os alem&atilde;es est&atilde;o no centro de um projeto    de reconstru&ccedil;&atilde;o e de supera&ccedil;&atilde;o. A cria&ccedil;&atilde;o    das estruturas universit&aacute;rias e de pesquisa cient&iacute;fica que representam    a maior contribui&ccedil;&atilde;o da Alemanha &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es    ocidentais faz parte dessa refunda&ccedil;&atilde;o. A prote&ccedil;&atilde;o    tem que ser compreendida nesse conjunto, junto com a import&acirc;ncia central    da pesquisa cient&iacute;fica e do desenvolvimento educacional: a Alemanha introduziu    a educa&ccedil;&atilde;o obrigat&oacute;ria muito antes que outros pa&iacute;ses    o tivessem feito (por exemplo, muito antes que a Inglaterra<a name="top6"></a><a href="#back6"><sup>6</sup></a>).    O mesmo pode ser dito com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; educa&ccedil;&atilde;o    formal em atividades empresariais (neg&oacute;cios), em contraposi&ccedil;&atilde;o    &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o familiar e &agrave; heran&ccedil;a que prevaleciam    nas empresas inglesas. O resultado desse processo de estrutura&ccedil;&atilde;o    de um sistema industrial que tem no protecionismo um ingrediente ativo pode    ser apreciado de diferentes modos, mas um de seus componentes tem grande for&ccedil;a    simb&oacute;lica: no final do s&eacute;culo XIX, entre 1886 e 1900, as seis    maiores empresas qu&iacute;micas alem&atilde;s requereram quase um milhar de    patentes e as suas cong&ecirc;neres inglesas solicitaram menos de uma centena    (948 contra 86)<a name="top7"></a><a href="#back7"><sup>7</sup></a>:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Quando as fam&iacute;lias    dos fundadores das empresas alem&atilde;s de pigmentos transferiram a responsabilidade    dos neg&oacute;cios para a primeira gera&ccedil;&atilde;o de administradores    profissionais, eles selecionaram qu&iacute;micos para serem dirigentes, porque    pensaram que dirigentes com treinamento cient&iacute;fico estariam em melhor    posi&ccedil;&atilde;o para compreender os riscos e as oportunidades enfrentados    pelas empresas em crescimento. A vis&atilde;o racional de dirigentes competentes    em termos t&eacute;cnicos poderia infundir na organiza&ccedil;&atilde;o toda    pr&aacute;ticas empresariais racionais com o prop&oacute;sito de assegurar o    crescimento e a rentabilidade das empresas".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A "supera&ccedil;&atilde;o"    da condi&ccedil;&atilde;o de atraso envolveu a mobiliza&ccedil;&atilde;o de    diversos fatores, e todos eles contribu&iacute;ram para que o modelo deliberadamente    protecionista evitasse os seus eventuais efeitos nocivos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A Alemanha unificada    do s&eacute;culo XIX n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico exemplo de prote&ccedil;&atilde;o    externa como ingrediente - central, diga-se - de um modelo din&acirc;mico, capaz    de estruturar um tecido econ&ocirc;mico rico, diversificado e muito competitivo,    em condi&ccedil;&otilde;es de assegurar ao mesmo tempo elevado &iacute;ndice    de desenvolvimento e capacidade de enfrentamento da concorr&ecirc;ncia em outros    mercados. Os Estados Unidos praticaram pol&iacute;ticas fortemente protecionistas    durante uma grande parte do s&eacute;culo XIX, at&eacute; depois que sua for&ccedil;a    industrial se afirmasse de modo indiscut&iacute;vel<a name="top8"></a><a href="#back8"><sup>8</sup></a>.    O Jap&atilde;o, que tamb&eacute;m recorreu ao protecionismo durante longo per&iacute;odo,    desenvolveu uma ind&uacute;stria automobil&iacute;stica que &eacute; amplamente    considerada como muito competitiva, qui&ccedil;&aacute; a mais competitiva entre    todas. Na origem desse processo de constitui&ccedil;&atilde;o est&aacute; um    hiperfechamento, que incluiu n&atilde;o apenas a barreira comercial intranspon&iacute;vel    para os produtos importados como a literal expuls&atilde;o das empresas montadoras    de origem estadunidense<a name="top9"></a><a href="#back9"><sup>9</sup></a>.    Nem por isso o mercado fechado e desprovido de investimentos externos impediu    que se estabelecesse uma competi&ccedil;&atilde;o muito intensa e com resultados    muito efetivos, como comprova a ascens&atilde;o da ind&uacute;stria automobil&iacute;stica    japonesa &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de lideran&ccedil;a a partir dos anos    1980. Prote&ccedil;&atilde;o externa e competitividade podem coadunar-se, mas    tamb&eacute;m podem produzir resultados muito pouco saud&aacute;veis, como se    sabe.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A prote&ccedil;&atilde;o    externa da economia brasileira possui tr&ecirc;s caracter&iacute;sticas que    a tornaram um ingrediente com diversos efeitos adversos. Intensa, abrangente,    duradoura<a name="top10"></a><a href="#back10"><sup>10</sup></a>, o aparato    de prote&ccedil;&atilde;o esteve associado a um elevado dinamismo econ&ocirc;mico,    com crescimento intenso e prolongado. Essas altas taxas de crescimento dos mercados,    alimentadas pelo processo de substitui&ccedil;&atilde;o de importa&ccedil;&otilde;es,    permitiram que as empresas encontrassem sistematicamente na captura de novas    fatias de mercado (antes ocupadas por importa&ccedil;&otilde;es) e em outras    atividades (diversifica&ccedil;&atilde;o) escoamento para os seus lucros e para    o seu potencial de expans&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As for&ccedil;as    expansivas do sistema econ&ocirc;mico capitalista possuem no ciclo da acumula&ccedil;&atilde;o    ampliada o seu elemento b&aacute;sico: ao final de cada ciclo de produ&ccedil;&atilde;o,    a empresa (cada empresa) tende a ter mais recursos (e mais capital) do que tinha    no in&iacute;cio. Para onde se dirigem esses capitais adicionais? Para a acumula&ccedil;&atilde;o,    para a expans&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o, para novos investimentos.    Se os mercados n&atilde;o crescem na mesma propor&ccedil;&atilde;o, se o potencial    de acumula&ccedil;&atilde;o das empresas excede o ritmo de crescimento do mercado,    &eacute; necess&aacute;rio encontrar novas &aacute;reas para investir esse excedente.    Historicamente, o acirramento da concorr&ecirc;ncia, a diversifica&ccedil;&atilde;o    e a internacionaliza&ccedil;&atilde;o das empresas cumpriram esse papel. A diversifica&ccedil;&atilde;o    e a internacionaliza&ccedil;&atilde;o s&atilde;o sa&iacute;das apenas tempor&aacute;rias    para esse mal do excesso<a name="top11"></a><a href="#back11"><sup>11</sup></a>,    pois cedo ou tarde a diversifica&ccedil;&atilde;o simples (expans&atilde;o para    mercados de produtos que j&aacute; existem) e a internacionaliza&ccedil;&atilde;o    (expans&atilde;o para outros territ&oacute;rios) tamb&eacute;m alcan&ccedil;am    os seus limites. O acirramento da concorr&ecirc;ncia, a luta pelos espa&ccedil;os    (restritos) de mercado, leva &agrave; redu&ccedil;&atilde;o das margens de lucro    e conduziria inevitavelmente a uma redu&ccedil;&atilde;o das taxas de lucro    se tudo permanecesse constante.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; nesse    ponto que entra em campo a mais poderosa das for&ccedil;as da concorr&ecirc;ncia    capitalista - aquilo a que os economistas mais importantes, desde Smith, e possivelmente    com a exce&ccedil;&atilde;o &uacute;nica de Keynes, dedicaram aten&ccedil;&atilde;o,    mesmo que o tenham feito sob diferentes denomina&ccedil;&otilde;es. Smith destacou    a divis&atilde;o do trabalho como for&ccedil;a de transforma&ccedil;&atilde;o<a name="top12"></a><a href="#back12"><sup>12</sup></a>.    Marx chamou mais-valia relativa aos lucros advindos das mudan&ccedil;as que    est&atilde;o no &acirc;mago da concorr&ecirc;ncia dos capitalistas pelos lucros    extraordin&aacute;rios e isso colocou em marcha as for&ccedil;as do progresso    t&eacute;cnico e das transforma&ccedil;&otilde;es que fizeram do capitalismo,    na sua vis&atilde;o, a mais poderosa for&ccedil;a de produ&ccedil;&atilde;o    e acumula&ccedil;&atilde;o de riquezas. Meio s&eacute;culo mais tarde, foi Schumpeter    quem colocou a cria&ccedil;&atilde;o de novos produtos, processos, mercados    e formas de organiza&ccedil;&atilde;o da vida econ&ocirc;mica como n&uacute;cleo    din&acirc;mico do sistema, dando-lhe um nome pr&oacute;prio - inova&ccedil;&atilde;o<a name="top13"></a><a href="#back13"><sup>13</sup></a>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>O MODELO BRASILEIRO:    SUBSTITUI&Ccedil;&Atilde;O DE IMPORTA&Ccedil;&Otilde;ES E CRESCIMENTO ACELERADO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O modelo de substitui&ccedil;&atilde;o    de importa&ccedil;&otilde;es no Brasil (e na Am&eacute;rica Latina) permitiu    que a ind&uacute;stria ocupasse gradativamente o novo terreno oferecido pelo    alargamento da prote&ccedil;&atilde;o. Sempre que um item importado entrava    na pauta dos candidatos a substitui&ccedil;&atilde;o, a empresa postulante a    faz&ecirc;-lo podia imediatamente solicitar que sua importa&ccedil;&atilde;o    fosse barrada. Assim, a sobreacumula&ccedil;&atilde;o, esse fen&ocirc;meno que    no sistema econ&ocirc;mico capitalista costuma produzir acirramento de concorr&ecirc;ncia    ou extrovers&atilde;o, foi evitada pela cria&ccedil;&atilde;o sucessiva de novos    espa&ccedil;os de aplica&ccedil;&atilde;o dos capitais, que assim escapavam    de ser excessivos e ademais estavam protegidos. Esse processo esteve associado    a um crescimento industrial extremamente acelerado, que propiciou oportunidades    para a expans&atilde;o do capital privado nacional, das empresas de origem estrangeira,    sem deixar de oferecer um papel de relevo &agrave;s empresas de capital estatal.    A substitui&ccedil;&atilde;o de importa&ccedil;&otilde;es, esse processo que    j&aacute; foi definido como a redu&ccedil;&atilde;o da depend&ecirc;ncia externa    e a mudan&ccedil;a na natureza dessa depend&ecirc;ncia<a name="top14"></a><a href="#back14"><sup>14</sup></a>,    significou tamb&eacute;m um al&iacute;vio forte e duradouro das press&otilde;es    competitivas que a acumula&ccedil;&atilde;o tende a exercer sobre as empresas<a name="top15"></a><a href="#back15"><sup>15</sup></a>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foi nesse contexto    que as empresas puderam adotar - de modo facultativo - pr&aacute;ticas tecnol&oacute;gicas    mais passivas e menos incisivas. O termo &eacute; empregado aqui em oposi&ccedil;&atilde;o    &agrave; necessidade, imposta pela concorr&ecirc;ncia, de construir estrat&eacute;gias    tecnol&oacute;gicas mais robustas, dotadas de recursos pr&oacute;prios, de pessoal    dedicado, de vis&otilde;es de longo prazo constru&iacute;das com apoio de ativos    exclusivos. Todas as empresas procuraram, &eacute; verdade, meios de produ&ccedil;&atilde;o    mais modernos, normalmente representados por m&aacute;quinas e equipamentos    importados. Mas a&iacute; se esgota o processo tecnol&oacute;gico ditado pelos    padr&otilde;es competitivos: a concorr&ecirc;ncia n&atilde;o exige mais<a name="top16"></a><a href="#back16"><sup>16</sup></a>.    As iniciativas que v&atilde;o al&eacute;m desse padr&atilde;o s&atilde;o, por    isso, facultativas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; assim    que &eacute; poss&iacute;vel encontrar, no mesmo sistema econ&ocirc;mico, um    n&uacute;cleo de empresas estatais que at&eacute; meados dos anos 1980 possu&iacute;am    estrat&eacute;gias muito ativas de aquisi&ccedil;&atilde;o e de desenvolvimento    tecnol&oacute;gico, ao lado de empresas estrangeiras e empresas nacionais de    todos os tipos e portes, que se contentavam, no mais das vezes, em recorrer    &agrave; fonte original de tecnologia: a matriz (no caso das empresas de origem    estrangeira), ou os fornecedores de bens de capital e de tecnologia (no caso    das empresas nacionais). S&oacute; em circunst&acirc;ncias excepcionais &eacute;    que essas empresas foram levadas a desenvolver esfor&ccedil;os pr&oacute;prios    para al&eacute;m do aprendizado incremental e relativamente modesto a partir    do "pacote" recebido ou adquirido. Mesmo empresas "de tecnologia" ou reconhecidas    como empresas com alicerces tecnol&oacute;gicos pr&oacute;prios s&atilde;o compradoras    de tecnologias de terceiros; e isso vale no Brasil e no mundo. A diferen&ccedil;a    n&atilde;o est&aacute; em "depender" de outros, est&aacute; em desenvolver rela&ccedil;&otilde;es    de compra e venda e de venda e compra, com graus de assimetria incomparavelmente    menores do que ocorre quando as empresas n&atilde;o possuem capacidades pr&oacute;prias.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Entre as circunst&acirc;ncias    excepcionais que motivaram esse comportamento fora da norma, &eacute; poss&iacute;vel    tipificar algumas situa&ccedil;&otilde;es. Em meados dos anos 1960, em meio    &agrave; fase recessiva que se seguiu &agrave; forte expans&atilde;o industrial    dos anos 1950, algumas empresas brasileiras descobriram que os seus contratos    de fornecimento de tecnologia lhes vedavam o acesso aos mercados externos, reservados    aos licenciadores. Esse fato, em alguns casos, ocasionou esfor&ccedil;os genu&iacute;nos    de desenvolvimento de compet&ecirc;ncias, de modo a propiciar, no futuro, autonomia    com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua estrat&eacute;gia comercial.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Destaque-se, nesse    caso, que n&atilde;o foi o padr&atilde;o competitivo do mercado interno que    ocasionou esse movimento, mas as restri&ccedil;&otilde;es comerciais impostas    externamente<a name="top17"></a><a href="#back17"><sup>17</sup></a>. Durante    as d&eacute;cadas de 1970 e 1980, empresas que enfrentaram essa situa&ccedil;&atilde;o    foram levadas a desenvolver estrat&eacute;gias de crescente autonomia tecnol&oacute;gica.    Algumas poucas empresas do setor qu&iacute;mico, nascidas no bojo dos grandes    projetos petroqu&iacute;micos brasileiros (Mau&aacute;, Cama&ccedil;ari, Triunfo),    foram tamb&eacute;m levadas a desenvolver capacidade tecnol&oacute;gica pr&oacute;pria,    para evitar a depend&ecirc;ncia, que consideravam excessiva, com rela&ccedil;&atilde;o    aos seus detentores originais de tecnologia<a name="top18"></a><a href="#back18"><sup>18</sup></a>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma segunda circunst&acirc;ncia    motivou comportamentos tecnol&oacute;gicos diferenciados com rela&ccedil;&atilde;o    ao padr&atilde;o que constituiu a norma no setor industrial: considera&ccedil;&otilde;es    de car&aacute;ter estrat&eacute;gico, quer dizer, extraecon&ocirc;micas, frequentemente    motivadas com a indu&ccedil;&atilde;o exercida pelo setor estatal ou por c&iacute;rculos    governamentais. Foi esse o caso, por exemplo, de uma empresa sider&uacute;rgica    com v&iacute;nculos com o setor nuclear<a name="top19"></a><a href="#back19"><sup>19</sup></a>.    V&aacute;rias outras empresas nessa condi&ccedil;&atilde;o desenvolveram estrat&eacute;gias    tecnol&oacute;gicas relativamente aut&ocirc;nomas. Os seus limites, entretanto,    estiveram condicionados pela pr&oacute;pria estrat&eacute;gia do demandante    estatal e raramente puderam desdobrar-se para mercados mais amplos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Existem tamb&eacute;m    filiais de empresas estrangeiras que ao longo da sua trajet&oacute;ria desenvolveram,    com graus variados, alguma autonomia tecnol&oacute;gica localmente. Essa ter&aacute;    sido, muitas vezes, uma alternativa residual (<i>second best</i>), frente &agrave;    impossibilidade de simplesmente adotarem a estrat&eacute;gia de divis&atilde;o    de trabalho t&iacute;pica com a matriz. Foi esse o caso de muitas empresas em    setores com produ&ccedil;&atilde;o diversificada e dificuldades para realizar    importa&ccedil;&otilde;es de modo sistem&aacute;tico (sobretudo quando, al&eacute;m    das barreiras tarif&aacute;rias, vigorava tamb&eacute;m o impedimento das licen&ccedil;as    pr&eacute;vias). Muitas empresas do setor qu&iacute;mico possu&iacute;am no    Brasil unidades dotadas de capacidades produtivas e capacita&ccedil;&otilde;es    tecnol&oacute;gicas que se tornaram necess&aacute;rias em raz&atilde;o do regime    comercial vigente. V&aacute;rias delas, no entanto, desarticularam t&atilde;o    logo puderam (no in&iacute;cio dos anos 1990) esse sistema que era, do ponto    de vista empresarial privado, extremamente ineficaz, embora contribu&iacute;sse    para um certo n&iacute;vel de compet&ecirc;ncias (e custos mais elevados) no    sistema industrial<a name="top20"></a><a href="#back20"><sup>20</sup></a>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O sucesso empresarial    excepcional de empresas com fortes componentes tecnol&oacute;gicos, como a Embraer    e a Petrobras, constitui uma oportunidade para refletir sobre os fatores que    os determinaram ou pelo menos sobre as circunst&acirc;ncias que os propiciaram.    O primeiro elemento a considerar &eacute; que ambas as empresas nasceram na    esfera estatal e muito mais marcadas por elementos estrat&eacute;gicos do que    exclusivamente sob determinantes econ&ocirc;micos. Essa afirma&ccedil;&atilde;o    vale tanto para os fatores do mercado para os seus produtos como dos acionistas    para os seus capitais. A funda&ccedil;&atilde;o de ambas as empresas &eacute;    muito posterior &agrave;s ideias e aos debates que culminaram em sua cria&ccedil;&atilde;o    e na orienta&ccedil;&atilde;o que vieram a ter. No caso da Embraer, em que pese    a sua funda&ccedil;&atilde;o oficial no final dos anos 1960, a sua origem verdadeira    est&aacute; nos anos 1930, ou mesmo antes. O primeiro Congresso Brasileiro da    Aeron&aacute;utica, que foi realizado em 1934, teve como elemento deflagrador    uma reuni&atilde;o realizada alguns anos antes (em 1928), quando se iniciou    a reflex&atilde;o estrat&eacute;gica sobre a necessidade de contar o Brasil    com meios de transporte velozes e capazes de cobrir o vasto territ&oacute;rio    nacional. A essa quest&atilde;o aparentemente singela seguiram-se intensos debates    e deles emergiram, como s&oacute;i acontecer no Brasil ao longo do s&eacute;culo    XX, dois grandes partidos (por assim dizer), duas correntes de pensamento. De    um lado, todos aqueles que sustentavam a necessidade imperiosa de dotar o Brasil    de uma ind&uacute;stria aeron&aacute;utica, de faz&ecirc;-lo de modo r&aacute;pido    e seguro, para o que defendiam recorrer &agrave; atra&ccedil;&atilde;o de investimentos    de empresa(s) estrangeira(s). A esse grupo se opunha, do outro lado, um grupo    que insistiu na tese de dotar o Brasil de uma ind&uacute;stria aut&ocirc;noma,    desenvolvida a partir de capitais brasileiros, capaz de criar e acumular conhecimentos    e compet&ecirc;ncias. As duas teses e suas estrat&eacute;gias puderam conviver,    nesse caso, porque inexistia qualquer press&atilde;o de demanda, do mercado,    a impor a solu&ccedil;&atilde;o mais vi&aacute;vel no curto prazo. Foi ela que    se imp&ocirc;s em muitas outras oportunidades: na implanta&ccedil;&atilde;o    da ind&uacute;stria automobil&iacute;stica, nos anos 1950; na transi&ccedil;&atilde;o    do padr&atilde;o de televis&atilde;o em preto e branco para o padr&atilde;o    em cores, nos anos 1970; e na transi&ccedil;&atilde;o para a telefonia m&oacute;vel,    nos anos 1990. Em cada um desses tr&ecirc;s casos, o mercado, a press&atilde;o    da demanda, ou simplesmente o vislumbre, pelos atores relevantes, de uma demanda    a ser criada e satisfeita, levou &agrave; ado&ccedil;&atilde;o da solu&ccedil;&atilde;o    mais pronta que propiciava a resposta mais imediata. O padr&atilde;o industrial    brasileiro subordinou muitas vezes o desenvolvimento da produ&ccedil;&atilde;o    aos ditames do consumo e da disponibilidade da produ&ccedil;&atilde;o dom&eacute;stica    no mais curto intervalo poss&iacute;vel; e raramente fez o inverso.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em meados dos anos    1980, antes que as privatiza&ccedil;&otilde;es europeias alcan&ccedil;assem    boa parte dos sistemas de radiodifus&atilde;o e canais privados passassem a    veicular publicidade em padr&otilde;es que se aproximam dos vigentes nos Estados    Unidos, o coeficiente de publicidade e propaganda com rela&ccedil;&atilde;o    ao PIB era, em todos os pa&iacute;ses europeus, inferior ao que se verificava    no Brasil. J&aacute; o &iacute;ndice de pesquisa e desenvolvimento com rela&ccedil;&atilde;o    ao PIB, como &eacute; amplamente sabido, &eacute; muito inferior no Brasil do    que &eacute; em quase todos os pa&iacute;ses europeus, com exce&ccedil;&otilde;es    pontuais. O padr&atilde;o competitivo da economia brasileira &eacute; muito    mais intensivo em sedu&ccedil;&atilde;o e persuas&atilde;o dos consumidores    pela via da publicidade do que pela via do desenvolvimento de solu&ccedil;&otilde;es    t&eacute;cnicas e tecnol&oacute;gicas mais avan&ccedil;adas e dependentes de    esfor&ccedil;os genu&iacute;nos. &Eacute; poss&iacute;vel que esse padr&atilde;o    esteja mudando com o advento de grandes contingentes de consumidores regulares,    mas talvez seja poss&iacute;vel sustentar que houve sempre consumidores para    quem o pre&ccedil;o era a &uacute;nica considera&ccedil;&atilde;o e outros para    quem o pre&ccedil;o n&atilde;o era uma considera&ccedil;&atilde;o relevante.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O caso da ind&uacute;stria    farmac&ecirc;utica brasileira &eacute; muito eloquente sobre a import&acirc;ncia    relativa dos ativos tecnol&oacute;gicos em compara&ccedil;&atilde;o com os comerciais.    Em que pese o esfor&ccedil;o muito modesto (qui&ccedil;&aacute; nulo, em muitos    casos) das empresas nacionais com rela&ccedil;&atilde;o ao desenvolvimento de    novos produtos, e mesmo com rela&ccedil;&atilde;o ao desenvolvimento de capacidades    tecnol&oacute;gicas na produ&ccedil;&atilde;o de farmoqu&iacute;micos, elas    conseguiram manter sempre posi&ccedil;&otilde;es de mercado muito s&oacute;lidas    e em diversos momentos apresentaram excelentes indicadores de desempenho. Valeram-se    de capacidades comerciais e de uma percep&ccedil;&atilde;o muito singular dos    aparatos institucionais (por exemplo, os regulat&oacute;rios; ou o papel das    farm&aacute;cias junto &agrave; popula&ccedil;&atilde;o com acesso limitado)    para constitu&iacute;rem ativos que sistematicamente se tornam valiosos para    as empresas internacionais com ativos tecnol&oacute;gicos, sejam aquelas que    desejam entrar no mercado, ou estejam j&aacute; presentes<a name="top21"></a><a href="#back21"><sup>21</sup></a>.    Mesmo num setor "de tecnologia", &eacute; poss&iacute;vel que os ativos tecnol&oacute;gicos    ocupem posi&ccedil;&otilde;es de depend&ecirc;ncia com rela&ccedil;&atilde;o    aos comerciais. Muitas empresas de origem estrangeira detentoras de ativos tecnol&oacute;gicos    relevantes optaram por associar-se (por diferentes mecanismos) a empresas nacionais    com escassos recursos tecnol&oacute;gicos como forma de verem valorizados os    seus produtos e tecnologias no mercado brasileiro.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Embora muito distinto    da Embraer, o caso da Petrobras enseja tamb&eacute;m reflex&otilde;es sobre    o padr&atilde;o tecnol&oacute;gico e sobre os modos de relacionamento da economia    nacional com o mundo exterior. Fundada, como se sabe, no bojo de lutas intensas    no campo das ideias sobre o desenvolvimento brasileiro e as suas possibilidades    e necessidades, a Petrobras foi um marco no desenvolvimento de diversas atividades    - e entre elas cabe destacar, pela sua import&acirc;ncia para o padr&atilde;o    tecnol&oacute;gico e industrial, o setor de equipamentos, ou de "bens de capital".    As trajet&oacute;rias t&atilde;o singulares dessas duas empresas de destaque    no mundo brasileiro da tecnologia s&atilde;o reveladoras precisamente da relativa    desimport&acirc;ncia dessa dimens&atilde;o durante um longo per&iacute;odo da    industrializa&ccedil;&atilde;o brasileira.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>AS RELA&Ccedil;&Otilde;ES    EXTERNAS E AS RELA&Ccedil;&Otilde;ES EXTERNAS DE CUNHO TECNOL&Oacute;GICO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As rela&ccedil;&otilde;es    externas de car&aacute;ter tecnol&oacute;gico da economia brasileira est&atilde;o    marcadas por esse processo hist&oacute;rico de desenvolvimento do sistema econ&ocirc;mico    e do setor industrial. A despeito de suscitar alguma contrariedade e pol&ecirc;mica,    &eacute; poss&iacute;vel sustentar que a tecnologia nunca ocupou o centro do    sistema econ&ocirc;mico e das estrat&eacute;gias empresariais, com exce&ccedil;&otilde;es    pontuais (algumas j&aacute; mencionadas, a t&iacute;tulo de ilustra&ccedil;&atilde;o    dos argumentos). O modelo de desenvolvimento constru&iacute;do propiciou que    assim fosse. A acumula&ccedil;&atilde;o foi acelerada pelo subs&iacute;dio &agrave;    importa&ccedil;&atilde;o de bens de capital durante um per&iacute;odo inicial,    refor&ccedil;ada pelo papel desempenhado pelas empresas estatais e fortemente    estimulada pelo concurso do capital estrangeiro. Ali&aacute;s, est&aacute; nesse    recurso ao capital estrangeiro uma dimens&atilde;o relevante do car&aacute;ter    marginal do desenvolvimento tecnol&oacute;gico: tendo ocupado desde meados dos    anos 1950 as principais posi&ccedil;&otilde;es din&acirc;micas do sistema industrial    brasileiro com seus pacotes e fluxos favorecidos pelo acesso seguro &agrave;    matriz, as empresas de origem estrangeira contribu&iacute;ram para consolidar    padr&otilde;es de desempenho industrial relativamente elevados, mas com recurso    sistem&aacute;tico a fontes externas de tecnologia. Com isso, elas deixaram,    em setores din&acirc;micos tecnologicamente, de contribuir para a implanta&ccedil;&atilde;o    de padr&otilde;es mais elevados de esfor&ccedil;o tecnol&oacute;gico local,    para a forma&ccedil;&atilde;o de pesquisadores e de um mercado de trabalho de    engenheiros, tecn&oacute;logos e cientistas nas empresas, assim como para o    desenvolvimento de mecanismos de incorpora&ccedil;&atilde;o de di&aacute;logo    entre as empresas e as institui&ccedil;&otilde;es formadoras de recursos humanos    e produtoras de conhecimento cient&iacute;fico. O quadro e a atitude pouco favor&aacute;veis    &agrave; pesquisa cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica nas empresas, de um    modelo que p&ocirc;de recorrer &agrave; importa&ccedil;&atilde;o de m&aacute;quinas    como "solu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica", beneficiaram-se muito pouco    da onda de investimentos externos que ganhou impulso nos anos 1950 e foi retomado    depois nos anos 1970.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As empresas privadas    nacionais que tradicionalmente confiaram na importa&ccedil;&atilde;o de m&aacute;quinas    e equipamentos tamb&eacute;m recorreram a licenciamentos e transfer&ecirc;ncias    de tecnologia em projetos que ultrapassavam os contornos pass&iacute;veis de    atendimento com a m&aacute;quina ou conjunto de m&aacute;quinas importados.    Nas suas negocia&ccedil;&otilde;es com os fornecedores de tecnologia (em que    pesem os termos pouco rigorosos que expressam essa rela&ccedil;&atilde;o t&atilde;o    complexa), as empresas brasileiras foram assistidas e apoiadas por legisla&ccedil;&atilde;o    pertinente e contaram com apoio negocial do Inpi, com o prop&oacute;sito declarado    de evitar que as assimetrias t&iacute;picas desse mercado pudessem acarretar    maiores perdas (pre&ccedil;os excessivos, transfer&ecirc;ncia deliberadamente    truncada, cl&aacute;usulas restritivas)<a name="top22"></a><a href="#back22"><sup>22</sup></a>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Cada uma dessas    condi&ccedil;&otilde;es enseja algumas rela&ccedil;&otilde;es t&iacute;picas.    Empresas privadas nacionais s&atilde;o modestas ou p&iacute;fias demandantes    de tecnologia, de um modo geral<a name="top23"></a><a href="#back23"><sup>23</sup></a>.    As suas demandas (em que pesem as necessidades muito superiores) resumem-se    quase sempre &agrave; compra de m&aacute;quinas e equipamentos. Embora venham    descobrindo mais recentemente as oportunidades oferecidas pelo mundo da tecnologia    e da inova&ccedil;&atilde;o, elas ainda s&atilde;o demandantes pontuais e epis&oacute;dicas.    No v&eacute;rtice da pir&acirc;mide, empresas brasileiras que desenvolveram    compet&ecirc;ncias para o aprendizado e consolidaram capacita&ccedil;&otilde;es    s&oacute;lidas e esfor&ccedil;os consistentes v&ecirc;m invertendo a sua rela&ccedil;&atilde;o    de depend&ecirc;ncia e o car&aacute;ter unilateral dos fluxos de tecnologia,    tornando-se progressivamente vendedoras e licenciadoras de tecnologias pr&oacute;prias.    At&eacute; mesmo pela sua origem nacional e pela facilidade com que conseguem    jogar de modo mais equilibrado o jogo da transfer&ecirc;ncia, essas empresas    conseguem desenvolver boas parcerias em transfer&ecirc;ncias com pa&iacute;ses    em desenvolvimento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Empresas estatais    foram, no passado, demandantes e desenvolvedoras de tecnologia em graus muito    variados e com resultados igualmente diversos. Puderam faz&ecirc;-lo por um    misto de interesse econ&ocirc;mico e considera&ccedil;&otilde;es de cunho dito    estrat&eacute;gico. O termo estrat&eacute;gico &eacute;, quase sempre, um escape    para a inexist&ecirc;ncia de raz&otilde;es objetivas e claramente definidas    para justificar escolhas, sobretudo quando os seus custos s&atilde;o elevados    e os benef&iacute;cios remotos (mesmo que se afigurem promissores). Sempre que    o p&ecirc;ndulo desse bin&ocirc;mio econ&ocirc;mico-estrat&eacute;gico pendeu    excessivamente para o segundo termo, o resultado foi a perda de consist&ecirc;ncia    da estrat&eacute;gia e da pr&oacute;pria &aacute;rea de desenvolvimento tecnol&oacute;gico.    Os custos econ&ocirc;micos de uma op&ccedil;&atilde;o que promete mas n&atilde;o    entrega na mesma propor&ccedil;&atilde;o e velocidade das expectativas criadas    terminam por desgastar-se frente &agrave;s partes relacionadas (os chamados    <i>stake-holders</i>).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Existem diversos    <i>trade-offs</i> entre decis&otilde;es com custos e benef&iacute;cios de curto    e de longo prazo. Esses <i>trade-offs</i> s&atilde;o especialmente relevantes    quando envolvem decis&otilde;es sobre a escolha de caminhos mais f&aacute;ceis    ou mais dif&iacute;ceis (no curto prazo) com resultados imediatos ou diferidos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O investimento    feito na Imperial Esta&ccedil;&atilde;o Agron&ocirc;mica de Campinas (1887),    que precedeu o Instituto Agron&ocirc;mico do Estado de S&atilde;o Paulo (1897)    e o Instituto Agron&ocirc;mico de Campinas (que ainda mant&eacute;m a denomina&ccedil;&atilde;o),    foi certamente um custo econ&ocirc;mico por um certo tempo (e portanto um &ocirc;nus    social, pelos gastos alternativos que deixaram de ser feitos), antes que produzisse    efeitos positivos para a cafeicultura e a agricultura de S&atilde;o Paulo e    do Brasil. Quando os conhecimentos e as compet&ecirc;ncias come&ccedil;aram    a maturar, eles passaram a participar de um fluxo regular de riquezas que j&aacute;    dura mais de um s&eacute;culo e se nutre e renova pelos v&iacute;nculos que    estabelece com o campo e com a ci&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Meio s&eacute;culo    mais tarde o Brasil iniciou os primeiros passos que culminariam na cria&ccedil;&atilde;o    do seu setor aeron&aacute;utico<a name="top24"></a><a href="#back24"><sup>24</sup></a>:    a escola de engenharia, o centro tecnol&oacute;gico e depois a fabrica&ccedil;&atilde;o    industrial. Os avi&otilde;es que hoje representam o principal produto de "alta    tecnologia" das exporta&ccedil;&otilde;es brasileiras foram iniciados com pequenos    investimentos e com um esfor&ccedil;o de aquisi&ccedil;&atilde;o internacional    de conhecimentos, compet&ecirc;ncias e tecnologia. A atra&ccedil;&atilde;o dos    c&eacute;rebros originais, entre os quais o professor Richard H. Smith, que    fora chefe do Departamento de Aeron&aacute;utica do Instituto de Tecnologia    de Massachusetts (MIT), contou com diversas colabora&ccedil;&otilde;es, entre    elas a indica&ccedil;&atilde;o do seu nome por um estudante brasileiro naquela    institui&ccedil;&atilde;o (major-aviador Oswaldo Nascimento Leal). A conjun&ccedil;&atilde;o    de circunst&acirc;ncias favor&aacute;veis dificilmente pode ser creditada ao    acaso ou a sucessivos golpes de sorte: pessoas certas nos lugares certos tamb&eacute;m    s&atilde;o uma constru&ccedil;&atilde;o laboriosa que o acaso dificilmente produz,    mesmo quando dela se beneficia. O CTA - Centro T&eacute;cnico da Aeron&aacute;utica    e os seus dois alicerces (ITA - Instituto Tecnol&oacute;gico da Aeron&aacute;utica    e IPD - Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento) s&atilde;o investimentos de    longo prazo de matura&ccedil;&atilde;o que se iniciam com a semente da importa&ccedil;&atilde;o    de conhecimentos. Ela est&aacute; presente na ida de pessoas para adquirirem    conhecimentos e compet&ecirc;ncias (Oswaldo Nascimento Leal) e na atra&ccedil;&atilde;o    de c&eacute;rebros e compet&ecirc;ncias de planejamento e gest&atilde;o (Richard    Smith).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O balan&ccedil;o    de pagamentos tecnol&oacute;gico retrata o conjunto de rela&ccedil;&otilde;es    de natureza tecnol&oacute;gica entre uma economia e o mundo externo. Os caf&eacute;s    que o Brasil exporta h&aacute; um s&eacute;culo para o mundo todo possuem elementos    do conhecimento que o pa&iacute;s vem criando desde pelo menos a cria&ccedil;&atilde;o    do instituto de pesquisa agr&iacute;cola de Campinas; e uma parte desse conhecimento    &eacute; importada - nas revistas de bot&acirc;nica e fisiologia vegetal, nas    bolsas dos estudantes que foram ao mundo aprender coisas novas, nos cientistas    que o Brasil atraiu de v&aacute;rios pa&iacute;ses, nos equipamentos e insumos    de pesquisa que importamos de tantos lugares, nas visitas t&eacute;cnicas, congressos    e miss&otilde;es internacionais que realizamos... Os avi&otilde;es que o Brasil    exporta hoje possuem fra&ccedil;&otilde;es das visitas t&eacute;cnicas de Montenegro    aos Estados Unidos nos anos 1940... Nenhuma rela&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica    se esgota no seu instante, n&atilde;o &eacute; uma compra sem hist&oacute;ria,    sem passado e sem futuro. O balan&ccedil;o de pagamentos tecnol&oacute;gico    ajuda a compreender esses fluxos, que envolvem defasagens intr&iacute;nsecas    e efeitos amplificados.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quando o Brasil    decidiu ter avi&otilde;es, houve momentos de indecis&atilde;o entre os caminhos    que poderiam ser escolhidos. Entre a f&aacute;brica importada e o desenvolvimento    de conhecimento havia <i>trade-offs</i> de v&aacute;rias naturezas. Importar    a f&aacute;brica (e o fabricante) seria possivelmente mais seguro, na opini&atilde;o    de muitos. Os resultados - a fabrica&ccedil;&atilde;o de avi&otilde;es - seriam    alcan&ccedil;ados mais rapidamente. Criar - ou mesmo <i>apenas reunir</i> -    compet&ecirc;ncias cient&iacute;ficas, tecnol&oacute;gicas, industriais, empresariais    e mercadol&oacute;gicas levaria (e de fato levou) muito tempo e os seus resultados    seriam incertos num horizonte temporal bastante longo. Quando a crise econ&ocirc;mica    (e fiscal) dos anos 1980 colheu o Brasil em rota de investimentos por maturar,    cr&iacute;ticas exacerbadas se voltaram contra esses projetos ditos fara&ocirc;nicos    e sem sentido. A perseveran&ccedil;a na escolha de um caminho permitiu que mais    de meio s&eacute;culo depois dos investimentos pioneiros tenham come&ccedil;ado    a surgir os resultados mais tang&iacute;veis do processo. Antes disso se formaram    pessoas e conhecimentos foram desenvolvidos e incorporados a outras atividades    e setores econ&ocirc;micos, numa institui&ccedil;&atilde;o que at&eacute; os    dias de hoje &eacute; amplamente reconhecida por sua excel&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No plano dos fluxos    de entrada e de sa&iacute;da de divisas relacionados com a importa&ccedil;&atilde;o    e a exporta&ccedil;&atilde;o de elementos de natureza tecnol&oacute;gica, houve    durante muitos anos uma sucess&atilde;o de modestas sa&iacute;das; e, junto    com os investimentos que foram realizados ano ap&oacute;s ano nas institui&ccedil;&otilde;es,    propiciaram a consolida&ccedil;&atilde;o dos institutos e a emerg&ecirc;ncia    da empresa aeron&aacute;utica. Os investimentos externos (ou as <i>compras</i>    externas de conhecimento) por interm&eacute;dio da ida de estudantes, pesquisadores    e profissionais brasileiros ao exterior redundaram no mais s&oacute;lido e diferenciado    fluxo de exporta&ccedil;&otilde;es, com elevada intensidade de valor agregado<a name="top25"></a><a href="#back25"><sup>25</sup></a>.    Quando se aplica conhecimento a uma atividade, &eacute; poss&iacute;vel que    essa atividade apresente um aumento de produtividade e de rendimento no mercado,    no primeiro caso pelo aumento da efici&ecirc;ncia produtiva (menos insumos por    unidade de produto), no segundo, pelo aumento do pre&ccedil;o obtido (margem    superior pela mesma quantidade de insumos).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A escolha brasileira    com rela&ccedil;&atilde;o aos autom&oacute;veis foi distinta. O processo de    montagem e progressiva fabrica&ccedil;&atilde;o evolu&iacute;a a passos lentos    e, em meados dos anos 1950, escolheu-se acelerar a nacionaliza&ccedil;&atilde;o    da fabrica&ccedil;&atilde;o e para isso capitais e empresas de capital estrangeiro    foram atra&iacute;dos<a name="top26"></a><a href="#back26"><sup>26</sup></a>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O salto da produ&ccedil;&atilde;o    ocorre de modo r&aacute;pido, com a nacionaliza&ccedil;&atilde;o de insumos,    pe&ccedil;as, partes, componentes e montagem. A transfer&ecirc;ncia de capitais    e capacidades industriais e empresariais elevou o patamar de produ&ccedil;&atilde;o    e de compet&ecirc;ncia, mas a trajet&oacute;ria encetada marginalizou os esfor&ccedil;os    pr&oacute;prios em favor de um complexo automobil&iacute;stico com presen&ccedil;a    dominante de empresas de capital estrangeiro. Os capitais que ingressaram para    essa finalidade expandiram-se e ensejam, desde ent&atilde;o, uma remunera&ccedil;&atilde;o    (e eventualmente remessas) progressivamente maiores, pois a base de sua incid&ecirc;ncia    cresceu.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os modelos industriais    automobil&iacute;stico e aeron&aacute;utico propiciam reflex&otilde;es sobre    as suas diferentes trajet&oacute;rias e sobre as raz&otilde;es de tamanha diverg&ecirc;ncia.    Em um caso, o investimento em aprendizagem foi poss&iacute;vel pelo sentido    <i>estrat&eacute;gico</i> atribu&iacute;do &agrave; atividade, que no outro    caso foi considerado um produto comercial menos sens&iacute;vel. Ocorreu diferentemente    em outras experi&ecirc;ncias hist&oacute;ricas: al&eacute;m do caso japon&ecirc;s,    j&aacute; mencionado, tamb&eacute;m a Coreia do Sul adiou sucessivamente a implanta&ccedil;&atilde;o    de uma ind&uacute;stria automobil&iacute;stica at&eacute; ter alcan&ccedil;ado    um n&iacute;vel de desenvolvimento empresarial e industrial aut&ocirc;nomo suficiente    para negociar com as empresas estrangeiras acordos satisfat&oacute;rios e de    absorver de modo efetivo as transfer&ecirc;ncias de tecnologia envolvidas em    um produto complexo com rela&ccedil;&atilde;o ao qual n&atilde;o possu&iacute;a    experi&ecirc;ncia anterior<a name="top27"></a><a href="#back27"><sup>27</sup></a>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sempre que a press&atilde;o    de mercado exp&ocirc;s a trajet&oacute;ria de aprendizagem da ind&uacute;stria    brasileira &agrave; necessidade de alcan&ccedil;ar resultados em intervalo de    tempo curto, o que se viu foi uma retra&ccedil;&atilde;o das empresas de capital    nacional e o avan&ccedil;o decidido das empresas de origem estrangeira. Foi    assim com a ind&uacute;stria automobil&iacute;stica (nos anos 1950), foi assim    com a ind&uacute;stria de receptores de televis&atilde;o (anos 1970) e foi assim    com as empresas de equipamentos de telecomunica&ccedil;&otilde;es (nos anos    1990). Mas a reserva de mercado para empresas nacionais n&atilde;o se mostrou,    em outras ocasi&otilde;es, instrumento suficiente para assegurar os esfor&ccedil;os    e os resultados almejados<a name="top28"></a><a href="#back28"><sup>28</sup></a>.    O debate sobre as raz&otilde;es dessa trajet&oacute;ria dominante na maior parte    das atividades industriais caracterizadas por forte dinamismo tecnol&oacute;gico    n&atilde;o est&aacute; encerrado, mas duas hip&oacute;teses explicativas podem    ser identificadas. A primeira indica um desenvolvimento tecnol&oacute;gico insuficiente    dessas empresas e a sua relativa incapacidade de acompanharem - de modo competitivo    - o desenvolvimento da fronteira internacional ou simplesmente o alcance de    seus patamares de desenvolvimento tecnol&oacute;gico, industrial e comercial.    A segunda sustenta a necessidade de contar com institui&ccedil;&otilde;es e    pol&iacute;ticas adequadas, dirigidas para a consecu&ccedil;&atilde;o de objetivos    claramente definidos e perseguidos de modo consistente. Na matriz te&oacute;rica    da primeira explica&ccedil;&atilde;o &eacute; comum considerar-se que a prote&ccedil;&atilde;o    resvalou para o protecionismo e que este assumiu um car&aacute;ter fr&iacute;volo<a name="top29"></a><a href="#back29"><sup>29</sup></a>    ou tornou-se uma a&ccedil;&atilde;o deliberadamente rentista (<i>rent-seeking</i>)<a name="top30"></a><a href="#back30"><sup>30</sup></a>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Prote&ccedil;&atilde;o    resvala inexoravelmente em protecionismo fr&iacute;volo ou a&ccedil;&atilde;o    deliberadamente rentista? Nem a experi&ecirc;ncia internacional, nem a experi&ecirc;ncia    brasileira permitem essa afirma&ccedil;&atilde;o. A realidade oferece apoios    - circunstanciais - a ambas as afirma&ccedil;&otilde;es. A produ&ccedil;&atilde;o    agr&iacute;cola brasileira sustenta h&aacute; muito tempo um n&iacute;vel de    competitividade crescente. O Brasil sustenta a posi&ccedil;&atilde;o de maior    produtor mundial de caf&eacute; e permanece como grande exportador h&aacute;    mais de um s&eacute;culo. Ao caf&eacute; juntaram-se o suco de laranja, a soja    e as carnes, com n&iacute;veis de competitividade que mobilizam os aparatos    de prote&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios pa&iacute;ses (desenvolvidos e com    tradi&ccedil;&atilde;o nessas atividades). O caso mais eloquente &eacute; o    do a&ccedil;&uacute;car e do etanol, em que a competitividade brasileira alcan&ccedil;a    n&iacute;veis extremamente elevados e amea&ccedil;a a produ&ccedil;&atilde;o    dom&eacute;stica de muitos pa&iacute;ses. Todas essas s&atilde;o atividades    agr&iacute;colas, pode-se argumentar: possuem vantagens iniciais ("naturais",    ao menos pelo pre&ccedil;o de um dos fatores) e n&atilde;o representam o n&uacute;cleo    do problema da competitividade, que se d&aacute; em bases industriais. Ademais,    nessas atividades, coube a um ator extraempresarial a fun&ccedil;&atilde;o de    realizar os esfor&ccedil;os que criam progresso t&eacute;cnico.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O Brasil &eacute;    competitivo tamb&eacute;m na produ&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;o e em v&aacute;rios    tipos de m&aacute;quinas e equipamentos. Construiu essa competitividade ainda    sob fechamento, com investimentos apoiados por recursos p&uacute;blicos e voltados    inicialmente para o mercado dom&eacute;stico. A extrovers&atilde;o veio depois,    de uma especializa&ccedil;&atilde;o que revelou capacidade de ir al&eacute;m    do atendimento do mercado dom&eacute;stico. Em todos esses casos, os produtos    e as atividades industriais possuem uma densidade tecnol&oacute;gica relativamente    modesta e o seu horizonte desloca-se de modo relativamente lento. A maior parte    dos setores metal-mec&acirc;nicos em que o Brasil ostenta competitividade internacional    encaixa-se nessa categoriza&ccedil;&atilde;o<a name="top31"></a><a href="#back31"><sup>31</sup></a>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>AS RELA&Ccedil;&Otilde;ES    EXTERNAS DE CUNHO TECNOL&Oacute;GICO E O DESENVOLVIMENTO DE COMPETITIVIDADE</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A economia brasileira    apresenta rela&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas variadas com o mundo exterior,    produto das suas trajet&oacute;rias hist&oacute;ricas de desenvolvimento. A    industrializa&ccedil;&atilde;o e o modo que assumiu, com participa&ccedil;&atilde;o    relevante de empresas de capital estrangeiro e um interesse modesto das empresas    nacionais por esfor&ccedil;os tecnol&oacute;gicos pr&oacute;prios, ajudaram    a moldar as rela&ccedil;&otilde;es entre o Brasil e os demais pa&iacute;ses    nesse quesito. Por um lado, a internaliza&ccedil;&atilde;o de capacidades industriais    e a competi&ccedil;&atilde;o entre as empresas apoiaram-se bastante na importa&ccedil;&atilde;o    de m&aacute;quinas e equipamentos, com apoio da assist&ecirc;ncia t&eacute;cnica    dos fornecedores. Por outro lado, as empresas de capital estrangeiro puderam    estabelecer uma clara supremacia industrial e tecnol&oacute;gica recorrendo    &agrave; fonte segura da sua matriz e reproduzindo localmente as suas posi&ccedil;&otilde;es    relativas do cen&aacute;rio internacional. Experi&ecirc;ncias tecnol&oacute;gicas    diferenciadas foram entabuladas sobretudo pelas empresas estatais, em diferentes    contextos: pesquisa agr&iacute;cola (Institutos Agron&ocirc;micos, Embrapa),    Petrobras, Embraer, Programa Nuclear, Pesquisas Espaciais, Pro&aacute;lcool    s&atilde;o exemplos de esfor&ccedil;os conduzidos ou patrocinados pelo Estado.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Vistas em retrospectiva,    v&aacute;rias das escolhas produziram efeitos que nem sempre foram antecipados.    A Petrobras ajudou a construir um setor de bens de capital relevante desde os    anos 1950, mas sem proje&ccedil;&atilde;o internacional digna de maior registro.    &Eacute; poss&iacute;vel que essa experi&ecirc;ncia possa suscitar reflex&otilde;es    sobre a nova onda de investimentos que se avizinha: a mera cria&ccedil;&atilde;o    de um setor fornecedor para a Petrobras e o setor de petr&oacute;leo no Brasil    poder&aacute; contribuir para criar uma ind&uacute;stria din&acirc;mica e com    proje&ccedil;&atilde;o internacional? A atra&ccedil;&atilde;o, motivada pelos    investimentos em curso e sobretudo os projetados, bastar&aacute; para criar    um setor industrial (e de servi&ccedil;os associados) competitivo e capaz de    al&ccedil;ar a ind&uacute;stria brasileira a um novo patamar de capacita&ccedil;&otilde;es,    competitividade e desenvolvimento?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pelo mesmo caminho    das preocupa&ccedil;&otilde;es com a nacionaliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o    (embora o termo mais adequado pudesse ser territorializa&ccedil;&atilde;o ou    internaliza&ccedil;&atilde;o), a ind&uacute;stria automobil&iacute;stica alcan&ccedil;ou    um patamar elevado de produ&ccedil;&atilde;o e um certo grau de sofistica&ccedil;&atilde;o    dos processos e dos produtos. Apesar disso, a sua balan&ccedil;a comercial n&atilde;o    se apresenta hoje t&atilde;o robusta e - mais grave - continua dependente de    uma tarifa externa muito elevada. A base ampliada do com&eacute;rcio regional    e a divis&atilde;o de trabalho com a ind&uacute;stria argentina no &acirc;mbito    do Mercosul ajudaram a consolidar uma atividade de grande import&acirc;ncia    e impactos plurais, mas de conte&uacute;do tecnol&oacute;gico ainda muito distante    do que seria esper&aacute;vel depois de mais de meio s&eacute;culo de produ&ccedil;&atilde;o    local por empresas que lideraram por tanto tempo o oligop&oacute;lio automobil&iacute;stico    mundial, secundadas por entrantes mais recentes. Ind&iacute;cios recentes parecem    apontar para um refor&ccedil;o das equipes locais de engenharia das empresas    estabelecidas, mas o termo "pesquisa" do trin&ocirc;mio PD&amp;I est&aacute;    ainda longe de ter uma express&atilde;o mais significativa. Isso ser&aacute;    t&atilde;o mais importante quando se considerar que a ind&uacute;stria automobil&iacute;stica    parece estar no advento de uma transi&ccedil;&atilde;o motivada pela energia.    Embora tenha contribu&iacute;do durante muito tempo para substituir importa&ccedil;&otilde;es,    o setor n&atilde;o parece preparado para participar de modo ativo do duplo esfor&ccedil;o    que se avizinha - combater o avan&ccedil;o muito agressivo da ind&uacute;stria    chinesa e indiana e construir uma posi&ccedil;&atilde;o s&oacute;lida na nova    ind&uacute;stria automobil&iacute;stica em gesta&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por um caminho    inteiramente distinto, sem preocupa&ccedil;&otilde;es t&atilde;o estritas com    rela&ccedil;&atilde;o ao conte&uacute;do nacional da produ&ccedil;&atilde;o,    partindo mais do elemento intang&iacute;vel do que da produ&ccedil;&atilde;o    material, o setor aeron&aacute;utico alcan&ccedil;ou uma proje&ccedil;&atilde;o    internacional a partir de um prolongado esfor&ccedil;o de capacita&ccedil;&atilde;o.    &Eacute; imposs&iacute;vel afirmar que a exporta&ccedil;&atilde;o de avi&otilde;es    &eacute; o principal resultado daquele esfor&ccedil;o de capacita&ccedil;&atilde;o    tecnol&oacute;gica iniciado h&aacute; tanto tempo. Sucessivas gera&ccedil;&otilde;es    de engenheiros, com s&oacute;lida forma&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e    tecnol&oacute;gica, preocupados com as trajet&oacute;rias de desenvolvimento    da ind&uacute;stria e com a tecnologia, s&atilde;o um coproduto de import&acirc;ncia    incomensur&aacute;vel.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma das li&ccedil;&otilde;es    que a perspectiva adotada neste ensaio propicia consiste em considerar de modo    mais efetivo o tempo e os seus efeitos. Investimentos tecnol&oacute;gicos s&atilde;o,    por sua natureza, mais dif&iacute;ceis de construir do que investimentos em    capacidades de produ&ccedil;&atilde;o, mormente quando os elementos tang&iacute;veis    dos processos e produtos estabelecidos est&atilde;o dispon&iacute;veis. Demorou    muito mais tempo para construir uma ind&uacute;stria aeron&aacute;utica do que    a automobil&iacute;stica, mas uma e outra possuem trajet&oacute;rias muito distintas.    Esta baseou-se na importa&ccedil;&atilde;o de m&aacute;quinas, equipamentos,    tecnologias, projetos e <i>know-how</i> e aquela na constru&ccedil;&atilde;o    dos elementos de conhecimento e s&oacute; progressivamente nas suas deriva&ccedil;&otilde;es    tang&iacute;veis.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esses dois caminhos    exemplificam escolhas que a sociedade brasileira vem fazendo h&aacute; muito    tempo e que j&aacute; foram debatidas, com diferentes matizes e conota&ccedil;&otilde;es,    ao longo da sua hist&oacute;ria, inclusive da hist&oacute;ria recente, desde    o in&iacute;cio dos anos 1990. Por detr&aacute;s dessas escolhas h&aacute; for&ccedil;as    sociais e projetos de na&ccedil;&atilde;o muito diferentes. Um dos elementos    que parece desempenhar um papel relevante, mas n&atilde;o tem sido destacado    de modo suficiente, &eacute; o consumo e a press&atilde;o do consumo mais imediato,    da disponibilidade dos "bens". Esse elemento enseja um <i>trade-off</i> evidente:    o desenvolvimento de uma ind&uacute;stria para atender um mercado &eacute; um    processo que leva tempo e tem incertezas intr&iacute;nsecas ao longo da sua    trajet&oacute;ria. Por isso, &eacute; sempre mais f&aacute;cil recorrer a solu&ccedil;&otilde;es    prontas. Mais f&aacute;cil, mas tamb&eacute;m menos produtivo, ensejando um    leque inferior de efeitos din&acirc;micos. E uma vez adotado um pacote industrial    pronto, &eacute; evidente que as possibilidades de aprendizado e de diferencia&ccedil;&atilde;o    das solu&ccedil;&otilde;es reduzem-se de modo substancial.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O Brasil encontra-se    numa encruzilhada neste terreno - n&atilde;o apenas o das tecnologias, mas o    das escolhas da sociedade. O crescimento acelerado dos &uacute;ltimos anos enseja    uma oportunidade de prosseguimento de um modelo industrial e tecnol&oacute;gico    que se encontra, em muitos aspectos, numa fase de auge e esgotamento. Muito    mais do que elevar as capacidades de produ&ccedil;&atilde;o, &eacute; tarefa    do desenvolvimento industrial brasileiro construir a transi&ccedil;&atilde;o    para uma nova fase. Mais do que perseguir a miragem das altas tecnologias com    lideran&ccedil;a consolidada (como a eletr&ocirc;nica e farmac&ecirc;utica),    &eacute; necess&aacute;rio construir por todos os lados liga&ccedil;&otilde;es    din&acirc;micas da produ&ccedil;&atilde;o com a tecnologia, sustentando-os em    padr&otilde;es contempor&acirc;neos e emergentes. Aparece aqui uma ambiguidade    que ser&aacute; necess&aacute;rio equacionar: o petr&oacute;leo brasileiro abundante    emerge de forma coet&acirc;nea com a transi&ccedil;&atilde;o da economia mundial    para uma economia mais sustent&aacute;vel, com peso destacado nas energias e    nas mat&eacute;rias-primas renov&aacute;veis. Visivelmente, o Brasil possui    um ve&iacute;culo mais poderoso para construir essa trajet&oacute;ria da explora&ccedil;&atilde;o    do petr&oacute;leo em condi&ccedil;&otilde;es de grande dificuldade tecnol&oacute;gica    e operacional do que para avan&ccedil;ar em dire&ccedil;&atilde;o aos renov&aacute;veis.    A capacita&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica (e industrial) da estatal de    petr&oacute;leo &eacute; incomparavelmente superior &agrave; capacita&ccedil;&atilde;o    das empresas brasileiras nas &aacute;reas de renov&aacute;veis. Seja no complexo    sucroalcooleiro, seja no setor qu&iacute;mico tradicional, as for&ccedil;as    empresariais est&atilde;o surpreendentemente ap&aacute;ticas em face da vastid&atilde;o    e pluralidade das oportunidades que o territ&oacute;rio e o desenvolvimento    brasileiro oferecem.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sustentabilidade,    recursos renov&aacute;veis, biotecnologia para a valoriza&ccedil;&atilde;o dos    recursos naturais e para a sustentabilidade s&atilde;o vetores fundamentais    a considerar. A contribui&ccedil;&atilde;o de cada setor ao desenvolvimento    dever&aacute; ser avaliada por sua capacidade de articular-se com esses vetores.    O Brasil pode navegar por mais uma d&eacute;cada na demanda imensa que o crescimento    r&aacute;pido criado no per&iacute;odo recente criou, refor&ccedil;ada ainda    pelo crescimento que a China e as economias cong&ecirc;neres (vastas popula&ccedil;&otilde;es,    crescimento com urbaniza&ccedil;&atilde;o e consumo material) v&atilde;o propiciar;    mas a reconstru&ccedil;&atilde;o das capacidades competitivas para al&eacute;m    desse horizonte curto de dez anos ou pouco mais depende de defini&ccedil;&otilde;es    que devem ser tomadas desde j&aacute;.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O momento da transi&ccedil;&atilde;o    &eacute; o das defini&ccedil;&otilde;es de maior impacto. Mas transi&ccedil;&atilde;o    &eacute; incerteza, e por isso as defini&ccedil;&otilde;es tendem a ser adiadas.    O passado brasileiro agrava esse quadro: fomos ex&iacute;mios seguidores, raramente    definimos a trajet&oacute;ria. Quando o fizemos, foi muito mais nas atividades    com menor densidade e menor dinamismo tecnol&oacute;gico. Pode ser esta a oportunidade    de mudar. Afinal, raramente o Brasil teve diante de seu desenvolvimento um tal    arsenal de recursos e oportunidades.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back1"></a><a href="#top1">1</a>    Fapesp, <i>Indicadores de Ci&ecirc;ncia, Tecnologia e Inova&ccedil;&atilde;o</i>,    S&atilde;o Paulo, Fapesp, edi&ccedil;&otilde;es de 2001, 2004 e 2010.    <br>   <a name="back2"></a><a href="#top2">2</a> O caf&eacute; ainda representava,    no in&iacute;cio dos anos 1960, mais da metade das exporta&ccedil;&otilde;es    brasileiras. Atualmente mal representa 3%.    <br>   <a name="back3"></a><a href="#top3">3</a> M. L. Possas, <i>Estrutura Industrial    Brasileira: Base Produtiva e Lideran&ccedil;a dos Mercados</i> (1970), disserta&ccedil;&atilde;o    de mestrado, Unicamp, 1977.    <br>   <a name="back4"></a><a href="#top4">4</a> F. List, <i>The National System of    Political Economy</i>, publicado originalmente (em alem&atilde;o) em 1841.    <br>   <a name="back5"></a><a href="#top5">5</a> Na formula&ccedil;&atilde;o original    da Cepal, com o texto fundador de Ra&uacute;l Prebisch sobre "O Desenvolvimento    Econ&ocirc;mico da Am&eacute;rica Latina e Alguns dos seus Principais Problemas"    (publicado em 1949), havia uma preocupa&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita com    rela&ccedil;&atilde;o ao tema da complementaridade das economias da Am&eacute;rica    Latina, mas ela teve pouca repercuss&atilde;o pr&aacute;tica e as barreiras    subsistiram durante o per&iacute;odo de industrializa&ccedil;&atilde;o acelerada.    <br>   <a name="back6"></a><a href="#top6">6</a> A Pr&uacute;ssia tornou o ensino elementar    obrigat&oacute;rio em 1772, algo que a Inglaterra faria apenas 130 anos depois.    Essa institui&ccedil;&atilde;o ajudou a criar uma massa de estudantes candidatos    ao sistema de ensino superior que, a partir de 1830, seria o mais importante    do mundo por um s&eacute;culo. Johann Peter Murmann e Ralph Laudau, "Early Growth    in the Chemical Industry, 1850-1914", in Asish Arora; Ralph Landau e Nathan    Rosenberg, <i>Chemicals and Long-Term Economic Growth</i>, p. 36.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="back7"></a><a href="#top7">7</a> Johann Peter Murmann e Ralph Laudau,    op. cit., p. 35. A escolha da qu&iacute;mica para efeitos de compara&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o &eacute; fortuita, prende-se ao fato de ser ela uma das primeiras    atividades industriais fortemente vinculadas ao desenvolvimento cient&iacute;fico,    e nesse sentido prenunciar uma prolongada superioridade do primeiro pa&iacute;s    que colocou a ci&ecirc;ncia e a forma&ccedil;&atilde;o de numerosos profissionais    com conhecimento e treinamento cient&iacute;fico como objetivo nacional e alicerce    do desenvolvimento industrial e empresarial.    <br>   <a name="back8"></a><a href="#top8">8</a> Em seu <i>Forma&ccedil;&atilde;o Econ&ocirc;mica    do Brasil</i>, p. 152, Celso Furtado afirmou: "O protecionismo surgiu nos Estados    Unidos, como sistema geral de pol&iacute;tica econ&ocirc;mica, em etapa j&aacute;    bem avan&ccedil;ada do s&eacute;culo XIX, quando as bases da economia j&aacute;    se haviam consolidado. Pela primeira tarifa norte-americana de 1789, os tecidos    de algod&atilde;o pagavam t&atilde;o somente 5% <i>ad valorem</i>, e a m&eacute;dia    para todas as mercadorias era 8,5%. V&aacute;rios ajustamentos permitiram que    a tarifa para tecidos de algod&atilde;o alcan&ccedil;asse 17,5% em 1808, &eacute;poca    em que a ind&uacute;stria t&ecirc;xtil norte-americana j&aacute; se podia considerar    consolidada".    <br>   <a name="back9"></a><a href="#top9">9</a> "<i>Prior to World War II, U.S. auto    companies were the major force in Japan's auto industry. The U.S. presence in    Japan started in 1909, when Ford first established an agent to handle its imports    into Japan. General Motors followed in 1915, Dodge and Chrysler started Japanese    operations in the 1920s. The Japanese Government began to restrict activities    of foreign automakers in Japan in the mid-1930s. In 1935, Ford was prevented    from carrying out a planned expansion. Shortly after that, the Automotive Manufacturing    Industries Law was passed, which protected the domestic industry and limited    production by foreign-owned plants. Nissan and Toyota became the only authorized    domestic manufacturers. By 1939, foreign-owned production had stopped in Japan,    and remaining U.S. assets were expropriated by the Japanese Government in December    1941</i>". Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.fairimage.org/tradewithjapan.htm" target="_blank">http://www.fairimage.org/tradewithjapan.htm</a>.    <br>   <a name="back10"></a><a href="#top10">10</a> Assim a caracterizou Suzigan, em    seu trabalho sobre a pol&iacute;tica industrial brasileira. Ver W. Suzigan,    1975. "Industrializa&ccedil;&atilde;o e Pol&iacute;tica Econ&ocirc;mica: Uma    Interpreta&ccedil;&atilde;o em Perspectiva Hist&oacute;rica", in <i>Pesquisa    e Planejamento Econ&ocirc;mico</i> 5(2):331-384, dez. 1975.    <br>   <a name="back11"></a><a href="#top11">11</a> Steindl prosseguiu uma discuss&atilde;o    que ocupou anteriormente a tradi&ccedil;&atilde;o marxista e foi sintetizada    em termos te&oacute;ricos por Kalecki, que resume a discuss&atilde;o entre Tugan-Baranowsky    e Rosa Luxemburgo. Michal Kalecki, "As Equa&ccedil;&otilde;es Marxistas de Reprodu&ccedil;&atilde;o    e a Economia Moderna", in J. Miglioli (org.), <i>Crescimento e Ciclo das Economias    Capitalistas</i>, S&atilde;o Paulo, Hucitec, 1983. Para Steindl, a diversifica&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o pode ser uma sa&iacute;da: os capitais ter&atilde;o sempre no seu    setor de origem uma posi&ccedil;&atilde;o mais favor&aacute;vel do que em outros    setores. Evidentemente, o grande ausente dessa discuss&atilde;o &eacute; o progresso    t&eacute;cnico e a inova&ccedil;&atilde;o. Ver J. Steindl, <i>Maturidade e Estagna&ccedil;&atilde;o    no Capitalismo Americano</i>, S&atilde;o Paulo, Abril Cultural (cole&ccedil;&atilde;o    Os Economistas), 1983.    <br>   <a name="back12"></a><a href="#top12">12</a> "<i>All the improvements in machinery,    however, have by no means been the inventions of those who had occasion to use    the machines. Many improvements have been made by the ingenuity of the makers    of the machines, when to make them became the business of a peculiar trade;    and some by that of those who are called philosophers or men of speculation,    whose trade it is not to do any thing, but to observe every thing; and who,    upon that account, are often capable of combining together the powers of the    most distant and dissimilar objects</i>", A. Smith, <i>A Riqueza das Na&ccedil;&otilde;es</i>,    1776, Livro I, cap. I, "Of the Division of Labor".    <br>   <a name="back13"></a><a href="#top13">13</a> Embora tenham ambos tratado do    fen&ocirc;meno da mudan&ccedil;a tecnol&oacute;gica, as diferen&ccedil;as entre    Marx e Schumpeter dificilmente podem ser exageradas. Para Marx o capitalista    &eacute; um escravo da concorr&ecirc;ncia que faz o que faz porque as leis da    concorr&ecirc;ncia assim o imp&otilde;em. Para Schumpeter, de modo muito diferente,    o empreendedor &eacute; um indiv&iacute;duo com caracter&iacute;sticas virtuosas    singulares, e &eacute; gra&ccedil;as a elas que ele impulsiona o sistema e assegura    a prosperidade t&iacute;pica do capitalismo.    <br>   <a name="back14"></a><a href="#top14">14</a> M. C. Tavares, <i>Da Substitui&ccedil;&atilde;o    de Importa&ccedil;&otilde;es ao Capitalismo Financeiro</i>.    <br>   <a name="back15"></a><a href="#top15">15</a> Essa afirma&ccedil;&atilde;o j&aacute;    foi fortemente contestada por diversos autores, incluindo alguns de grande prest&iacute;gio,    como A. B. Castro.    <br>   <a name="back16"></a><a href="#top16">16</a> Essa afirma&ccedil;&atilde;o j&aacute;    foi fortemente contestada por diversos autores, incluindo alguns de grande prest&iacute;gio,    como Ricardo Bielschowsky. Para Bielschowsky, a ind&uacute;stria brasileira    encontrava-se em fase de forte crescimento e consistente ac&uacute;mulo de compet&ecirc;ncias    tecnol&oacute;gicas quando foi atingida pela crise internacional que irrompeu    no in&iacute;cio dos anos 1980.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="back17"></a><a href="#top17">17</a> Cf. Jos&eacute; Mindlin, acionista    e dirigente da Metal Leve, empresa brasileira do segmento de pe&ccedil;as para    a ind&uacute;stria automobil&iacute;stica, em seu depoimento &agrave; "Comiss&atilde;o    Parlamentar de Inqu&eacute;rito destinada a investigar as causas e as consequ&ecirc;ncias    do atraso industrial e tecnol&oacute;gico brasileiro". Congresso Nacional, 1991.    <br>   <a name="back18"></a><a href="#top18">18</a> Entre os casos not&aacute;veis,    destaque-se a Oxiteno, entre as empresas privadas, e a Polialden, entre aquelas    com forte influ&ecirc;ncia do setor p&uacute;blico (Petroquisa, subsidi&aacute;ria    da Petrobras para a petroqu&iacute;mica). A Oxiteno desenvolveu conhecimentos    e capacidades que lhe permitiram enfrentar momentos bastante adversos e manter-se    com autonomia e resultados invej&aacute;veis; e a Polialden, mais tarde absorvida    pela hoje Braskem, conseguiu desenvolver um pl&aacute;stico de ultra-alta densidade    que a afastou do mundo das <i>commodities</i> com margens estreitas.    <br>   <a name="back19"></a><a href="#top19">19</a> <a href="http://www.arqanalagoa.ufscar.br/pdf/recortes/R00529.pdf" target="_blank">http://www.arqanalagoa.ufscar.br/pdf/recortes/R00529.pdf</a>    <br>   <a name="back20"></a><a href="#top20">20</a> A Abiquim mant&eacute;m um registro    das produ&ccedil;&otilde;es que foram descontinuadas. Ela totaliza mais de uma    centena de produtos. Agrade&ccedil;o &agrave; Comiss&atilde;o de Economia da    Abiquim pelo acesso aos resultados de um trabalho (muito meticuloso) ainda em    andamento na &aacute;rea de economia da Associa&ccedil;&atilde;o.    <br>   <a name="back21"></a><a href="#top21">21</a> Eduardo Urias, <i>A Ind&uacute;stria    Farmac&ecirc;utica Brasileira : um Processo de Coevolu&ccedil;&atilde;o de Institui&ccedil;&otilde;es,    Organiza&ccedil;&otilde;es Industriais, Ci&ecirc;ncia e Tecnologia</i>, disserta&ccedil;&atilde;o    de mestrado, Unicamp, 2010.    <br>   <a name="back22"></a><a href="#top22">22</a> Essa legisla&ccedil;&atilde;o foi    revogada e as suas pr&aacute;ticas associadas foram banidas durante o curto    governo de Fernando Collor. Elas n&atilde;o foram posteriormente reinstauradas.    <br>   <a name="back23"></a><a href="#top23">23</a> Disso d&aacute; provas a voca&ccedil;&atilde;o    da principal escola brasileira de forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica para    a ind&uacute;stria: muito eficaz na forma&ccedil;&atilde;o de trabalhadores    com dotes t&eacute;cnicos, do b&aacute;sico ao t&eacute;cnico completo, a institui&ccedil;&atilde;o    revelou sempre uma certa rejei&ccedil;&atilde;o &agrave; fundamenta&ccedil;&atilde;o    tecnol&oacute;gica (o que dizer da cient&iacute;fica) no aprendizado. A endogenia    dos seus quadros t&eacute;cnicos e dos seus gestores contribuiu tamb&eacute;m    para as fronteiras que separam o Senai do conhecimento de base cient&iacute;fica    e da tecnologia como pr&aacute;tica fundamentada.    <br>   <a name="back24"></a><a href="#top24">24</a> "Cada pa&iacute;s, dizia ele &#91;Santos    Dumont&#93;, deveria desenvolver sua pr&oacute;pria tecnologia, a par com o    avan&ccedil;o da ci&ecirc;ncia aeron&aacute;utica, dirigida para projetos e    produ&ccedil;&atilde;o de aparelhos, e tamb&eacute;m como desenvolver produtos    e materiais, de acordo com processos e m&eacute;todos t&eacute;cnicos dos respectivos    parques industriais. Essas recomenda&ccedil;&otilde;es foram repetidas por Santos-Dumont    no Congresso Cient&iacute;fico Pan-americano, em 1915, e, no Brasil, no per&iacute;odo    de 1915 a 1918, em seus pronunciamentos orais e em seus escritos, procurando    atrair a aten&ccedil;&atilde;o dos membros do Governo, com prof&eacute;tica    antevis&atilde;o do futuro sobre o importante papel que os aerostatos e os avi&otilde;es    iriam desempenhar no mundo. Foi em seu livro <i>O que Vi, o que Veremos</i>,    editado em 1918 pela Editora A Encantada, que Santos-Dumont registrou a ideia    de cria&ccedil;&atilde;o de uma escola t&eacute;cnica, no Brasil, voltada para    a avia&ccedil;&atilde;o, antevendo um centro de tecnologia que s&oacute; se    efetivaria cerca de 30 anos mais tarde. Eis o par&aacute;grafo do livro: 'Eu,    que tenho algo de sonhador, nunca imaginei o que tive ocasi&atilde;o de observar,    quando visitei uma enorme f&aacute;brica nos EUA. Vi milhares de h&aacute;beis    mec&acirc;nicos ocupados na constru&ccedil;&atilde;o de aeroplanos, produzindo    diariamente de 12 a 18'". Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.cta.br/origemconceitual.php" target="_blank">http://www.cta.br/origemconceitual.php</a>.    <br>   <a name="back25"></a><a href="#top25">25</a> Eis uma express&atilde;o que suscita    espa&ccedil;o para interpreta&ccedil;&otilde;es equivocadas: valor agregado.    H&aacute; mais valor agregado num real de soja ou de medicamento, num real de    min&eacute;rio de ferro ou de autom&oacute;vel? H&aacute; exatamente o mesmo    valor agregado. O valor agregado corresponde &agrave; soma das remunera&ccedil;&otilde;es    dos fatores de produ&ccedil;&atilde;o que participaram da atividade produtiva,    diretamente (trabalho) e indiretamente (os equipamentos, por meio de sua deprecia&ccedil;&atilde;o),    acrescidos das remunera&ccedil;&otilde;es do capital (o lucro). Tudo o mais    constante, todas as atividades agregaram o mesmo valor. A diferen&ccedil;a n&atilde;o    est&aacute; no valor agregado, mas na intensidade dessa agrega&ccedil;&atilde;o:    se qualquer atividade produ&ccedil;&atilde;o (de soja, de min&eacute;rio de    ferro, de medicamento ou de autom&oacute;vel) possui "x" horas de trabalho,    a intensidade da agrega&ccedil;&atilde;o &eacute; o valor adicionado dividido    por "x" horas. A intensidade da agrega&ccedil;&atilde;o por unidade de fator    produtivo &eacute; o quociente entre o valor e as horas despendidas nessa atividade,    sendo maior na atividade em que o denominador for menor. Se a produ&ccedil;&atilde;o    de soja for feita em bases competitivas, resultando em elevada produtividade    e efici&ecirc;ncia, a mesma agrega&ccedil;&atilde;o de valor resultar&aacute;    numa rentabilidade maior (e portanto em possibilidades maiores de expans&atilde;o)    do que numa atividade em que a maior intensidade de agrega&ccedil;&atilde;o    de valor for feita em bases tais que a rentabilidade da atividade resultar inferior    (e portanto oferecendo menores oportunidades de expans&atilde;o).    <br>   <a name="back26"></a><a href="#top26">26</a> Muitos segmentos atuantes na vida    pol&iacute;tica nacional sustentavam que as empresas estrangeiras nunca estariam    dispostas a participar de modo ativo do esfor&ccedil;o de industrializa&ccedil;&atilde;o.    A incompreens&atilde;o sobre o momento hist&oacute;rico de internacionaliza&ccedil;&atilde;o    do capital industrial europeu e estadunidense ter&aacute; tamb&eacute;m contribu&iacute;do    para a entrega simples de v&aacute;rios n&uacute;cleos din&acirc;micos da ind&uacute;stria    e da tecnologia em condi&ccedil;&otilde;es muito mais favor&aacute;veis do que    seria necess&aacute;rio. A Instru&ccedil;&atilde;o 113 (da Superintend&ecirc;ncia    da Moeda e Cr&eacute;dito) foi o principal instrumento cambial-financeiro para    essa atra&ccedil;&atilde;o. Institu&iacute;da no interregno Caf&eacute; Filho,    foi amplamente utilizada posteriormente.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="back27"></a><a href="#top27">27</a> Existe uma detalhada cronologia    da ind&uacute;stria automobil&iacute;stica coreana na p&aacute;gina do Wikipedia    (em ingl&ecirc;s): <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Automotive_industry_in_South_Korea#1950s" target="_blank">http://en.wikipedia.org/wiki/Automotive_industry_in_South_Korea#1950s</a>.    Ela mostra de modo detalhado os esfor&ccedil;os de absor&ccedil;&atilde;o e    a busca muito ativa de desenvolvimento de capacidades aut&ocirc;nomas. &Eacute;    evidente que, por suas caracter&iacute;sticas de produ&ccedil;&atilde;o em larga    escala, competi&ccedil;&atilde;o intensa e din&acirc;mica de mercado com elementos    de diferencia&ccedil;&atilde;o muito pronunciados, a ind&uacute;stria automobil&iacute;stica    possui efeitos de aprendizado e de difus&atilde;o tecnol&oacute;gica que a aproximam    de um n&uacute;mero de setores industriais muito maior do que uma ind&uacute;stria    <i>estrat&eacute;gica</i> (no sentido militar).    <br>   <a name="back28"></a><a href="#top28">28</a> O caso not&oacute;rio &eacute;    a pol&iacute;tica (de reserva de mercado) de inform&aacute;tica que vigorou    sobretudo nos anos 1980. Seus excessos s&atilde;o julgados uma causa de atraso    por uns e suas insufici&ecirc;ncias s&atilde;o vistas por outros como explica&ccedil;&atilde;o    da frustra&ccedil;&atilde;o de suas promessas.    <br>   <a name="back29"></a><a href="#top29">29</a> F. Fajnzylber formulou essa hip&oacute;tese    e comparou esse protecionismo com aquele que prevaleceu no modelo asi&aacute;tico.    F. Fajnzylber, <i>La Industrializaci&oacute;n Trunca de Am&eacute;rica Latina</i>,    M&eacute;xico, D.F., Editorial Nueva Imagem, 1983.    <br>   <a name="back30"></a><a href="#top30">30</a> Essa a hip&oacute;tese que foi    tradicionalmente sustentada por todos aqueles que se opunham &agrave;s pol&iacute;ticas    industriais ativas e que granjearam progressivamente apoios mais amplos.    <br>   <a name="back31"></a><a href="#top31">31</a> Siderurgia (de ferrosos e n&atilde;o    ferrosos), mec&acirc;nica (motores el&eacute;tricos, equipamentos de refrigera&ccedil;&atilde;o),    aparelhos e m&aacute;quinas com baixo conte&uacute;do eletr&ocirc;nico (incluindo    m&aacute;quinas de terraplenagem) s&atilde;o exemplos evidentes. A competitividade    em alguns segmentos com maior conte&uacute;do eletr&ocirc;nico e inform&aacute;tico    apoiam-se nos regimes de prote&ccedil;&atilde;o e nas especificidades institucionais.</font></p>      ]]></body>
<REFERENCES></REFERENCES
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