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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>LIVROS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4">    <b> Homenagem ao mestre Jac&oacute;</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Isa etel Kopelman</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pesquisadora e    professora de Est&eacute;tica Teatral e Dramaturgia na Unicamp</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/rusp/n89/20f01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Apenas a a&ccedil;&atilde;o      &eacute; viva,    <br>     mas s&oacute; a palavra permanece"    <br>     (Eugene Barba).</font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na tradi&ccedil;&atilde;o    filos&oacute;fica, a arte da conversa&ccedil;&atilde;o ou do debate (<i>dialektik&ecirc;</i>)    &eacute;, fundamentalmente, o processo de racioc&iacute;nio que leva &agrave;    obten&ccedil;&atilde;o da verdade e do conhecimento<a name="top1"></a><a href="#back1"><sup>1</sup></a>.    Em Plat&atilde;o, o recurso a essa formula&ccedil;&atilde;o serve &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o    de seu pensamento dial&eacute;tico. Do ponto de vista teatral, o di&aacute;logo    &eacute; um dos avatares da comunica&ccedil;&atilde;o vivenciada entre os sujeitos.    Arist&oacute;teles, que caracteriza o drama por meio da a&ccedil;&atilde;o,    destaca no di&aacute;logo o motor da cena dram&aacute;tica. No teatro aristot&eacute;lico,    as ideias e as f&aacute;bulas acontecem, s&atilde;o vividas, por meio do di&aacute;logo.    Na perspectiva das teorias e das pedagogias teatrais, a forma dial&oacute;gica    tem sido amplamente utilizada, n&atilde;o meramente como instrumento de ret&oacute;rica,    mas como via de conhecimento. O embate, o <i>agon</i>, subjacente ao dialogismo,    recorre a esse procedimento como um modo poss&iacute;vel de apreender o mundo,    de processar e de elaborar a produ&ccedil;&atilde;o intelectual e emocional.    Pensamos n'<i>O Paradoxo do Comediante</i> de Diderot e na "Segunda Noite" de    <i>A Compra do Lat&atilde;o</i> (1939-40) de Brecht. Por&eacute;m, a situa&ccedil;&atilde;o    espec&iacute;fica de aprendizagem em aula, do processo did&aacute;tico da cena    tem em Stanisl&aacute;vski seu maior autor. N' <i>A Forma&ccedil;&atilde;o do    Ator</i> e n'<i>A Constru&ccedil;&atilde;o do Personagem,</i> o modo de interlocu&ccedil;&atilde;o    do professor/autor com seus alunos revela o conjunto de t&eacute;cnicas interiores    e exteriores em que o ator deve se expor e expor uma experi&ecirc;ncia vivida.    Essa esp&eacute;cie de di&aacute;logo de dupla enuncia&ccedil;&atilde;o remete    o leitor ao interior da cena apresentada, revelando uma &iacute;ntima associa&ccedil;&atilde;o    da teoria &agrave; pr&aacute;tica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em um ensaio sobre    a natureza e as estruturas do teatro - "Di&aacute;logos sobre a Natureza do    Teatro"<a name="top2"></a><a href="#back2"><sup>2</sup></a> -, J. Guinsburg,    na trilha de seus antecessores, reencena a situa&ccedil;&atilde;o de aula como    uma arena de discuss&atilde;o de conceitos de est&eacute;tica. No modo de oralidade,    portanto, o autor segue uma via de reflex&atilde;o sobre o fen&ocirc;meno teatral    e as teorias a ele relacionadas. Na condu&ccedil;&atilde;o desse trabalho, o    professor examina os elementos operativos fundamentais da cena dram&aacute;tica,    envolvendo os alunos no debate sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre texto, ator    e p&uacute;blico. Detendo-se na investiga&ccedil;&atilde;o dos elementos teatrais,    Guinsburg torna esses conte&uacute;dos em uma teatralidade, na qual o professor    e os alunos s&atilde;o os atores e o leitor &eacute; o espectador. A partir    das proposi&ccedil;&otilde;es iniciais e tendo como premissa o texto teatral    enquanto elemento de organiza&ccedil;&atilde;o e intencionalidade da cena, a    discuss&atilde;o se estabelece desdobrando temas. Da assun&ccedil;&atilde;o    da m&aacute;scara &agrave; defini&ccedil;&atilde;o do ator, da instaura&ccedil;&atilde;o    do espa&ccedil;o do jogo &agrave; rela&ccedil;&atilde;o entre ator e p&uacute;blico,    entre criador e receptor, o professor elabora com seus alunos as reflex&otilde;es    sobre a corporeidade e os seus signos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A marca&ccedil;&atilde;o    teatral do registro did&aacute;tico, em que o pr&oacute;prio di&aacute;logo    desencadeia um jogo de reflex&otilde;es dos sujeitos envolvidos no processo    do conhecimento, ocupa um espa&ccedil;o vital na bel&iacute;ssima obra editada    pela Edusp: <i>J. Guinsburg, A Cena em Aula</i> - <i>Itiner&aacute;rios de um    Professor em Devir</i>, com organiza&ccedil;&atilde;o de Rosangela Patriota    e J. Guinsburg. O t&iacute;tulo, a organiza&ccedil;&atilde;o e a nomea&ccedil;&atilde;o    dos cap&iacute;tulos reiteram o perfil de teatralidade do livro, que tem como    foco irradiador as aulas do professor Guinsburg em seus cursos de cr&iacute;tica    e est&eacute;tica teatral na Escola de Arte Dram&aacute;tica de S&atilde;o Paulo    e nos cursos de gradua&ccedil;&atilde;o e p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o    da ECA-USP. Na composi&ccedil;&atilde;o da obra, registros, anota&ccedil;&otilde;es    de aula, ensaios, tradu&ccedil;&otilde;es, depoimentos de ex-alunos, e um vibrante    relato de Guinsburg que exp&otilde;e n&atilde;o somente a erudi&ccedil;&atilde;o    e a extrema agilidade intelectual de seu autor, mas tamb&eacute;m a presen&ccedil;a    marcante de um debatedor, articulador, tradutor, ensa&iacute;sta e, sobretudo,    um grande humanista. Em <i>A Cena em Aula,</i> mesclam-se arte e vida, informa&ccedil;&atilde;o    te&oacute;rica e art&iacute;stica, imagina&ccedil;&atilde;o e a&ccedil;&atilde;o,    todo um conjunto heterog&ecirc;neo de investiga&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica,    ensa&iacute;stica, homenagem e memorial em uma nova e original fei&ccedil;&atilde;o    de escritura.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os dois cap&iacute;tulos    iniciais constituem o n&uacute;cleo te&oacute;rico do livro, o verso e o reverso    de um processo de reflex&atilde;o est&eacute;tica e cr&iacute;tica. No primeiro    cap&iacute;tulo &eacute; apresentado o di&aacute;logo em sala de aula. A discuss&atilde;o,    voltada para o fen&ocirc;meno teatral, revela uma rede tem&aacute;tica cujos    fundamentos prenunciam os trabalhos teatrais posteriores &agrave; d&eacute;cada    de 1980. No segundo cap&iacute;tulo, Guinsburg descortina o material que apoia    a elabora&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via das aulas. Embora alinhadas &agrave;s    tem&aacute;ticas, &agrave;s produ&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas e teorias    que circulavam nas d&eacute;cadas de 1970 e 1980, as quest&otilde;es que a&iacute;    se apresentam s&atilde;o precursoras de futuras proposi&ccedil;&otilde;es do    trabalho teatral, no campo da teoria e da cria&ccedil;&atilde;o, que se estabelecer&aacute;    mais radicalmente na passagem para o s&eacute;culo XXI. Assim, a abrang&ecirc;ncia    e a consist&ecirc;ncia dos conceitos a&iacute; analisados situam o leitor no    panorama da produ&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica e art&iacute;stica que vem    se desenvolvendo desde ent&atilde;o pelas vias da semiologia e da antropologia    teatral, das teorias da <i>performance</i> e da performatividade, do estatuto    do ator, dos estudos interdisciplinares do espet&aacute;culo e das distin&ccedil;&otilde;es    entre texto e cena.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esse amplo espectro    de temas tem in&iacute;cio com a discuss&atilde;o do fen&ocirc;meno teatral    em suas origens na manifesta&ccedil;&atilde;o ritual. A partir da premissa de    um prototeatro com capacidade potencial de representa&ccedil;&atilde;o, simboliza&ccedil;&atilde;o    e formaliza&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o investigados os seus aspectos sincr&ocirc;nicos    e as conex&otilde;es com a teoria dos g&ecirc;neros com base nos conceitos da    teoria liter&aacute;ria. Na interlocu&ccedil;&atilde;o com <i>O Teatro &Eacute;pico,</i>    obra do professor Anatol Rosenfeld, Guinsburg aborda as quest&otilde;es referentes    &agrave; l&iacute;rica, &agrave; &eacute;pica e ao drama, destacando os aspectos    fluidez e contamina&ccedil;&atilde;o das formas no interior da obra. Detendo-se    no exame das po&eacute;ticas c&ecirc;nicas do s&eacute;culo XX (Appia, Gordon    Craig, Artaud, Brecht, Stanisl&aacute;vski, Meyerhold), Guinsburg discute antinomias,    confrontos do antigo com a modernidade, em autores e correntes art&iacute;sticas    que colocam em relevo os processos de historiciza&ccedil;&atilde;o (Schiller,    B&uuml;chner e outros) na retomada da obra cl&aacute;ssica em um tempo presente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O fen&ocirc;meno    &eacute; abordado n&atilde;o s&oacute; do ponto de vista da diacronia, mas tamb&eacute;m    da sincronia. No t&oacute;pico "Representa&ccedil;&atilde;o - Jogos Teatrais",    as quest&otilde;es referentes ao car&aacute;ter da fic&ccedil;&atilde;o teatral    e de seus suportes - o jogo do ator, os processos de recep&ccedil;&atilde;o    e as afetividades - s&atilde;o examinadas nessa dupla perspectiva. Se, de um    lado, uma organiza&ccedil;&atilde;o de estruturas, signos e valores garante    a transistoricidade da obra, de outro, as formas c&ecirc;nicas, as pr&aacute;ticas    de representa&ccedil;&atilde;o e os jogos teatrais apresentam-se em sua transitoriedade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Outro tema fundamental    nesse t&oacute;pico &eacute; a distin&ccedil;&atilde;o entre a a&ccedil;&atilde;o    c&ecirc;nica e a a&ccedil;&atilde;o ficcional do registro dramat&uacute;rgico.    Na leitura fenomenol&oacute;gica de Guinsburg, a performatividade do ator est&aacute;    sempre contaminada de uma valora&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica, de uma potencialidade    s&iacute;gnica, portanto, de uma dramaturgia na qual interv&ecirc;m o ator e    o espectador. Na outra ponta, a escrita dramat&uacute;rgica, considerada em    primeira inst&acirc;ncia como literatura, &eacute; um documento em aberto capaz    de comportar releituras e agregar conquistas formais em suas transposi&ccedil;&otilde;es    para o palco. Nas discuss&otilde;es que envolvem a rela&ccedil;&atilde;o textualidade/performatividade,    Guinsburg reconhece a primazia da cena sobre o texto liter&aacute;rio e, na    medida em que este n&atilde;o &eacute; mais considerado o eixo central da cena,    adquire, enquanto dramaturgia ficcional, estatuto de registro po&eacute;tico    e documento. O tema do confronto entre texto e representa&ccedil;&atilde;o merece    uma aten&ccedil;&atilde;o maior, que n&atilde;o cabe no limite deste ensaio.    A fenomenologia e a semiologia t&ecirc;m posi&ccedil;&otilde;es distintas a    esse respeito. Em um ensaio sobre o assunto, o pesquisador Patrice Pavis argumenta    que o fato de texto dram&aacute;tico e representa&ccedil;&atilde;o responderem    a sistemas semiol&oacute;gicos distintos impede de situ&aacute;-los no mesmo    plano ou espa&ccedil;o te&oacute;rico<a name="top3"></a><a href="#back3"><sup>3</sup></a>.    As proposi&ccedil;&otilde;es de Pavis s&atilde;o interessantes pois favorecem    o aspecto operativo e pragm&aacute;tico do trabalho teatral. No entanto, a discuss&atilde;o    proposta por Guinsburg &eacute; mais abrangente, relacionando os processos do    conhecimento a uma ontologia, &agrave;s fei&ccedil;&otilde;es mais gerais da    realidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na busca da especificidade    do fen&ocirc;meno teatral, Guinsburg descreve o objeto em seus mais variados    aspectos, iluminando o leitor com a precis&atilde;o de seus argumentos. Desse    modo os temas da valora&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica e da potencialidade    s&iacute;gnica s&atilde;o admiravelmente retomados no t&oacute;pico que discute    o realismo no teatro. Pela via da epistemologia e da est&eacute;tica realista,    Guinsburg apresenta a sua leitura da fundamenta&ccedil;&atilde;o mim&eacute;tica    do teatro, relacionando a pr&aacute;tica de representa&ccedil;&atilde;o ao fen&ocirc;meno    do real. Partindo da percep&ccedil;&atilde;o de duas fun&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias    "&agrave; configura&ccedil;&atilde;o do universo c&ecirc;nico: a concre&ccedil;&atilde;o    mim&eacute;tica e a articula&ccedil;&atilde;o significativa" (J. Guinsburg,    p. 87) e com base na ideia do campo simb&oacute;lico como instituinte do mundo    em que vivemos, Guinsburg argumenta que o pr&oacute;prio tr&acirc;nsito dos    elementos simb&oacute;licos entre o mundo real e o ficcional relaciona necessariamente    essas duas inst&acirc;ncias. Desse modo, a natureza mim&eacute;tica do fen&ocirc;meno    teatral &eacute; reintegrada &agrave; chave da diacronia; a fic&ccedil;&atilde;o    teatral legitima-se pela "representifica&ccedil;&atilde;o" e pela "reapresenta&ccedil;&atilde;o"    de elementos simb&oacute;licos da vida dos homens; e os elementos de cria&ccedil;&atilde;o    teatral constroem esteticamente as similitudes da obra com a sua &eacute;poca.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na abordagem do    t&oacute;pico que se refere ao gesto, Guinsburg det&eacute;m-se no exame de    uma teatralidade inserida no contexto da cultura, do seu tempo, e analisada    em seus limites. Na medida em que a teatralidade se lan&ccedil;a cada vez mais    em territ&oacute;rios h&iacute;bridos, o tema da performatividade adquire um    car&aacute;ter relevante na descri&ccedil;&atilde;o dos mecanismos de constitui&ccedil;&atilde;o    de sentido da cena. Desse modo, o valor de <i>representa&ccedil;&atilde;o</i>    &eacute; concebido como o resultado de um jogo de for&ccedil;as entre as estruturas    teatrais e os fluxos energ&eacute;ticos - gestuais, vocais, libidinais - atuantes    na <i>performance</i> e gerando processos inst&aacute;veis de manifesta&ccedil;&otilde;es    c&ecirc;nicas. S&atilde;o duas realidades em a&ccedil;&atilde;o. Essas quest&otilde;es    s&atilde;o retomadas no fino exame das rela&ccedil;&otilde;es entre ator, texto    e cena, no fechamento do cap&iacute;tulo. A&iacute; s&atilde;o examinadas duas    vias antin&ocirc;micas, exemplares e referenciais da teatralidade moderna, o    sistema de Stanisl&aacute;vski e a po&eacute;tica de Meierhold.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/rusp/n89/20f02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A oralidade de    em "Em Cena - Nos Di&aacute;logos" traduz os debates v&iacute;vidos e contagiantes    em situa&ccedil;&otilde;es de aula. Acompanhamos com emo&ccedil;&atilde;o esses    di&aacute;logos engajados na busca do conhecimento, sintonizados com as indaga&ccedil;&otilde;es    e com a condu&ccedil;&atilde;o das reflex&otilde;es a&iacute; registradas. No    decorrer da leitura, deparamo-nos com um corte nesse modo de enuncia&ccedil;&atilde;o.    Outra forma discursiva &eacute; introduzida no segundo cap&iacute;tulo, intitulado    "Nos Bastidores". S&atilde;o as anota&ccedil;&otilde;es de apoio did&aacute;tico,    as leituras, os coment&aacute;rios, todo um conjunto de reflex&otilde;es e leituras    que destacam a interlocu&ccedil;&atilde;o de Guinsburg com a hist&oacute;ria    da arte, a filosofia, a teoria liter&aacute;ria. Uma preciosa antologia de textos,    manifestos, poemas, em grande parte traduzidos por ele, e de ensaios, seus e    de outros autores, &eacute; oferecida ao leitor. S&atilde;o textos que transitam    da filosofia &agrave; literatura, da hist&oacute;ria &agrave; semi&oacute;tica,    da teoria dos g&ecirc;neros &agrave;s formas teatrais, das correntes cr&iacute;ticas    aos estilos liter&aacute;rios, do teatro antigo ao moderno, de Brecht a Ionesco,    da concep&ccedil;&atilde;o aristot&eacute;lica grega ao vazio beckettiano. Guinsburg    comp&otilde;e as observa&ccedil;&otilde;es de aula com fragmentos de obras,    coment&aacute;rios e apresenta&ccedil;&atilde;o das modalidades teatrais ao    modo de verbetes de uma enciclop&eacute;dia, apontando as prefer&ecirc;ncias,    as escolhas significativas que relacionam atos, ideias, fatos, aos artefatos    da cultura. O elemento l&uacute;dico interv&eacute;m nessa organiza&ccedil;&atilde;o,    que se assemelha um pouco a um almanaque, um pouco a uma pequena enciclop&eacute;dia,    e outro tanto a uma antologia. A leitura prazerosa adv&eacute;m da vivacidade    e da descontra&ccedil;&atilde;o com que o autor compartilha com o leitor desse    repert&oacute;rio t&atilde;o belo e interessante.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No terceiro cap&iacute;tulo,    "Do P&uacute;blico, da Recep&ccedil;&atilde;o - Depoimentos", uma elipse no    tempo. A mobiliza&ccedil;&atilde;o de outras vozes, com depoimentos de gratid&atilde;o    e afeto de seus ex-alunos e colaboradores, que traduzem o legado do mestre nos    cora&ccedil;&otilde;es e nas mentes de muitos que s&atilde;o hoje atuantes na    &aacute;rea acad&ecirc;mica e art&iacute;stica brasileira. S&atilde;o depoimentos    que expressam o alcance de sua influ&ecirc;ncia e o significado de sua atua&ccedil;&atilde;o    na vida das pessoas que com ele se relacionam, direta ou indiretamente.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">S&atilde;o vozes    que falam da ponte entre o conhecimento e a cria&ccedil;&atilde;o - "Ele nos    fazia perceber que os escritos est&eacute;ticos ou as an&aacute;lises hist&oacute;ricas    n&atilde;o eram letra-morta, mas instrumentos capazes de agir sobre nossas experimenta&ccedil;&otilde;es    em sala de ensaio &#91;...&#93; n&atilde;o se tratava de uma teoria aplicada,    mas sim, o encontro com a pot&ecirc;ncia criativa geradora do pensamento e da    reflex&atilde;o", Antonio Ara&uacute;jo, p. 449 -, do trabalho colaborativo,    de aprendizado m&uacute;tuo e generosidade, na constru&ccedil;&atilde;o de um    bem comum de ideais e conhecimento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Ensin&aacute;vamos    tudo que sab&iacute;amos ao Jac&oacute;. E ele aprendia - como depois aprendemos    a aprender, com ele. E que belo aluno era aquele professor! Atento, curioso,    respeitoso; arguto, pertinente, questionador. Naquela mesa de tantas vozes e    tantos professores, talvez fosse ele o &uacute;nico aluno de verdade. E com    este grande aluno aprend&iacute;amos, numa graciosa rela&ccedil;&atilde;o eu-tu,    que justamente essa experi&ecirc;ncia buberiana, urdida na paix&atilde;o e na    linguagem e na paix&atilde;o pela linguagem o que os tornava teatrantes. &#91;...&#93;    os encontros descritos aqui tinham algo de transforma&ccedil;&atilde;o dos elementos    - ou ainda a cria&ccedil;&atilde;o de um novo elemento! Tantas vezes vi realizar-se    &agrave; minha frente o milagre borgiano do homem que assegura a paz no mundo    quando tem o prazer de descobrir a inesperada etimologia de uma palavra... Com    que prazer acompanh&aacute;vamos o circunvoluir de um racioc&iacute;nio geneal&oacute;gico    a partir de uma insuspeita palavra suspeita, ca&ccedil;ada como se fosse ao    acaso pelo Jac&oacute;. Numa crescente e doce tens&atilde;o, da qual n&atilde;o    t&iacute;nhamos pressa alguma em escapar" (Bosco Brasil, p. 454).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Guinsburg, como    professor, orientador, editor e autor, nas diversas &aacute;reas de sua atua&ccedil;&atilde;o,    estabelece uma rede de afetividade, conhecimento e investiga&ccedil;&atilde;o,    conferindo um sentido maior aos padr&otilde;es de conhecimento acad&ecirc;mico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No fechamento do    livro, no cap&iacute;tulo 4, &eacute; o protagonista quem d&aacute; seu testemunho.    Em uma fascinante narrativa pessoal, revela-se o intelectual e o humanista.    Entrevistado, Guinsburg conta sua vida, fazendo um relato de sua participa&ccedil;&atilde;o    na produ&ccedil;&atilde;o intelectual brasileira desde meados do s&eacute;culo    XX at&eacute; agora. Em seu percurso de autodidata, o autor contempla-nos com    sua viv&ecirc;ncia nas diversas &aacute;reas em que atuou.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O surgimento de    sua <i>persona</i> p&uacute;blica d&aacute;-se em um contexto de ideais revolucion&aacute;rios    e engajamento pol&iacute;tico, muito pr&oacute;ximo da comunidade de imigrantes    judeus de esquerda que vivia no Brasil na &eacute;poca da guerra, escrevendo    para revistas da comunidade e ligada &agrave;s atividades do teatro &iacute;diche    em S&atilde;o Paulo. Depois de ter trabalhado como tecel&atilde;o e comerciante,    durante certo per&iacute;odo, Guinsburg inicia sua carreira editorial fundando    a Editora Rampa, onde publica quatro obras da literatura &iacute;diche. Paralelamente,    cria um grupo de estudos dedicado principalmente ao marxismo e, posteriormente,    na d&eacute;cada de 1950, cria um novo grupo voltado &agrave; filosofia e epistemologia,    coordenado pelo professor Anatol Rosenfeld. J. Guinsburg trabalha ainda na editora    Difel, de onde parte como bolsista em editora&ccedil;&atilde;o. No retorno,    come&ccedil;a a trabalhar da EAD na cadeira de cr&iacute;tica teatral e, com    a passagem dessa escola para a USP, &eacute; convidado a lecionar na ECA, onde    cria a disciplina de Est&eacute;tica Teatral. Funda ent&atilde;o a Editora Perspectiva,    onde edita at&eacute; hoje obras seminais do trabalho e das ci&ecirc;ncias humanas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os ideais de juventude    est&atilde;o presentes ao longo dessa jornada exemplar compartilhada com pessoas    com as quais ele viveu e trabalhou, e para as quais abre um espa&ccedil;o generoso    ao longo da narrativa. Surgem dessa narrativa emocionante imagens de tempos    pret&eacute;ritos que, como cenas em devir, v&atilde;o compondo o perfil e a    trajet&oacute;ria de um homem, em suas a&ccedil;&otilde;es transformadoras,    a nos lembrar a possibilidade de um mundo melhor.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>J. Guinsburg, a Cena em    Aula - Itiner&aacute;rios de um Professor em Devir</i>, organiza&ccedil;&atilde;o    de Rosangela Patriota e J. Guinsburg, S&atilde;o Paulo, Edusp, 2009, 552 p.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back1"></a><a href="#top1">1</a>    Verbete "<i>Dial&eacute;tica</i>", in Simon Blackburn, Rio de Janeiro, Jorge    Zahar, 1997, p. 99.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="back2"></a><a href="#top2">2</a> J. Guinsburg, <i>Da Cena em Cena</i>,    S&atilde;o Paulo, Perspectiva, 2001.    <br>   <a name="back3"></a><a href="#top3">3</a> Patrice Pavis, "Um Texto para o Palco:    um Parto Dif&iacute;cil", in , S&atilde;o Paulo, Perspectiva, 2008, pp. 21-42.</font></p>      ]]></body>
<REFERENCES></REFERENCES
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